Quanto custa ser feminina?

A pressão para manter uma aparência e atitude feminina é um fato constante da vida das mulheres, e todas nós estamos cientes das consequências que podemos sofrer ao descumprir o papel de gênero imposto pela sociedade. As consequências afetam nossa vida familiar, nossas relações amorosas, nossa carreira profissional. Mulheres que se recusam a se apresentar de maneira feminina são consideradas imaturas, preguiçosas, desleixadas, ou mesmo – o pior dos insultos – lésbicas. O policiamento é ainda mais ferrenho quando se trata de mulheres gordas, mulheres negras, ou qualquer uma outra que não se encaixe no inatingível e preconceituoso padrão de beleza das revistas de moda.

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Ter órgãos internos é sinal de que você anda meio descuidada.

Esse policiamento constante da própria aparência e comportamento é custoso para as mulheres em diversos aspectos. Em primeiro lugar, é importante apontar o investimento significativo de tempo necessário para a manutenção da performance feminina, chamado de “tripla jornada” pela escritora Naomi Wolf em seu livro “O Mito da Beleza“. Em conjunto com a primeira e a segunda jornadas, se referindo ao trabalho fora de casa e ao trabalho doméstico, Wolf identifica a pressão para atingir um ideal impossível de beleza como mais uma ferramenta usada para exaurir mulheres de seu tempo livre, como pode-se ver nesse trecho do livro:

Por todo o Ocidente, o emprego das mulheres foi estimulado pela ampla erosão da base industrial e pela tendência na direção das tecnologias da informação e dos serviços. A redução nas taxas de nascimento do pós-guerra e a conseqüente falta de mão-de-obra especializada resulta no fato de as mulheres serem realmente bem-vindas à força de trabalho, como burras-de-carga descartáveis, sem sindicatos, com baixos salários e restritas a um gueto de funções “femininas”. O economista Marvin Harris descreveu as mulheres como uma mão-de-obra “dócil e instruída”, portanto “candidatas desejáveis aos empregos das áreas de informação e de processamento criadas pelas modernas indústrias de serviços”. As qualidades que mais convém aos empregadores nas trabalhadoras dessa categoria são o amor-próprio reduzido, a tolerância para com tarefas repetitivas e monótonas, a falta de ambição, o alto nível de conformidade, o maior respeito pelos homens (que são seus superiores) do que pelas mulheres (que trabalham a seu lado) e pouca sensação de controle sobre suas próprias vidas. Num estágio superior, as gerentes de nível médio são aceitáveis, desde que se identifiquem com o mundo masculino e não façam muitos esforços para subir. Algumas poucas mulheres simbólicas no topo da corporação, nas quais a tradição feminina esteja totalmente extinta, são úteis. O mito da beleza é a última e melhor técnica de treinamento para forjar uma força de trabalho dessa natureza. Ele cumpre todas essas funções durante o expediente e ainda acrescenta uma tripla jornada que se encaixa no seu tempo livre.

Além do custo em horas, é preciso considerar também o custo psicológico da imposição de um padrão de comportamento submisso e da constante vigilância da própria aparência. Por exemplo, em sua tese de conclusão de curso para a Occidental College, Kate Handley observou que mulheres alteram seu comportamento em um restaurante quando estão em companhia de homens. A pesquisa de Handley, feita a partir da observação de 18 mesas em um restaurante dentro de um período de dez horas, demonstra que, quando estão em companhia masculina, mulheres tendem a preferir alimentos de baixo valor calórico, gesticulam menos e consomem o alimento mais vagarosamente e com mordidas menores. A pesquisadora observou também que, quando estão em companhia de outras mulheres, estas tendem a comer mais rápido, conversar mais animadamente, e até mesmo falar de boca cheia. Embora a pesquisa não tenha sido feita de maneira estritamente científica, com uma amostragem pequena, o auto-policiamento constante da própria feminilidade é uma tendência que já foi notada em outros estudos. Acadêmicos da Brigham Young University e da universidade de Princeton descobriram que mulheres tendem a falar menos quando estão em presença de um número maior de homens, e um estudo do National Bureau of Economic Research mostra que mulheres tendem a minimizar suas aspirações profissionais quando estão conversando com um possível parceiro romântico, acreditando que ambição profissional e um salário alto as tornariam menos atraentes. Acredito que a maioria de nós frequentemente observe situações semelhantes às descritas acima em nosso dia-a-dia.

O terceiro custo da imposição da feminilidade é o mais fácil de mensurar: o custo financeiro. Dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo mostram que o povo brasileiro como um todo gastou 20,3 bilhões de reais em serviços relacionados à beleza no ano de 2012. Embora esses dados não sejam apresentados, é razoável assumir que a maior parte desse dinheiro vem de bolsos femininos, já que não são os homens os clientes habituais de manicures, pedicures, cabeleireiros e serviços de depilação.

Para levantar uma reflexão sobre o custo financeiro da performance feminina, resolvi fazer um experimento informal. Entrei em uma farmácia próxima ao meu local de trabalho, em um bairro de classe média da capital paulistana, e chequei os preços de alguns itens relacionados à “beleza feminina”.

Para que seja possível ter um parâmetro para julgar os preços dos itens, vou postar alguns valores de referência, lembrando que todos eles se referem a São Paulo, capital, em Janeiro de 2017.

Um salário mínimo: R$ 937,00

Uma passagem de ônibus/metrô/trem: R$ 3,80

Um litro de gasolina: R$ 3,20

Cinco quilos de arroz marca “Tio João”: R$ 16,69

Um quilo de feijão carioca marca “Camil”: R$ 5,19

Um Big Mac: R$ 16,50

Uma garrafa de detergente 500ml marca “Ypê”: R$ 2,02

Uma garrafa de 3 litros de sabão líquido marca “OMO”: R$ 36,96

Tendo esses valores em mente, também estabeleci uma regra para sempre considerar o item mais barato de cada categoria disponível na farmácia, e não considerei cosméticos de preços exorbitantes, daqueles que ficam em prateleiras separadas por “grife”. Acredito que esses não sejam itens consumidos com frequência pela maioria das brasileiras.

Vamos ao nosso primeiro item: lâminas de barbear.

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A gente sabe que essas são para delicadas pernocas femininas e não para rudes barbas másculas porque elas são rosinhas e tem a palavra “sensitive” na embalagem.

A depilação feminina é uma das imposições mais ferrenhas da sociedade, em especial no Brasil, conhecido internacionalmente pelas virilhas “cavadas” e genitálias carecas desmatadas à base de cera quente. Para o dia a dia, a opção mais conveniente é raspar as pernas no chuveiro. Por R$ 9,90 o pacote com duas lâminas não parece um mau negócio, mas com o clima quente e as canelas constantemente expostas a depilação se torna quase diária, e as lâminas rapidamente ficam cegas.

E se você tiver pernas como as minhas, vai uma lâmina em cada perna e acabou.

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A serenidade no olhar de quem é peludo mas todo mundo acha bonitinho.

Caso você seja uma mulher que se depile com lâmina, provavelmente também vai levar um tubo de espuma para depilação. A opção mais barata sai por R$ 13,99, totalizando R$ 23,89 no combo lâminas + espuma.

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Dessa vez o rosa e o sensível vieram separados.

Outra opção para a remoção dos pelos é a cera fria, que é menos eficiente que a cera quente e tão ou mais dolorosa quanto. As folhas de autoflagelação cera são vendidas em uma versão para o corpo, por R$ 15,99, e uma para o rosto, por R$ 9,99. A composição química das duas versões é idêntica, como pode ser verificado no site do fabricante aqui e aqui. Ou seja, estão te fazendo de trouxa e vendendo duas vezes a mesma coisa.

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De novo a caixa rosa e a indicação de que o produto é para “peles delicadas”. Para arrancar metade do seu sovaco fora com toda a delicadeza.

A terceira opção para a depilação são os cremes depilatórios, uma solução feita de ácido tioglicólico e hidróxido de potássio que destrói as células de queratina que compõem os pelos. Novamente, existe uma versão para o corpo e uma para o rosto, por R$ 23,49 e R$ 15,79 respectivamente. Diferente da cera fria, a composição dos produtos não é idêntica. A versão facial contém alguns ingredientes a mais. Não possuo o conhecimento de química para saber se eles fazem alguma diferença, mas caso alguém queira dar uma olhada, as composições podem ser vistas aqui e aqui.

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Só eu que acho que é meio bizarro colocar na sua cara um bagulho que derrete cabelo?

No final das contas, negar nossa natureza mamífera e cabeluda não é a melhor ideia, do ponto de vista da saúde. A remoção dos pelos, especialmente com cera, pode causar o encravamento dos pelos, foliculite, dermatite de contato, queimaduras e outros problemas dermatológicos. A depilação completa da região genital, que tem se tornado cada vez mais comum, possivelmente devido à influência da pornografia, pode ter infecções mais graves como consequência. A região é úmida e quente, perfeita para a proliferação de bactérias, que tem acesso à corrente sanguínea através de pequenas lesões causadas pela remoção dos pelos. Existem evidências também de que a depilação da região genital facilita a transmissão de DSTs.

Quanto ao mito de que não depilar o corpo é falta de higiene, se você acredita nisso seja coerente e raspe a cabeça na zero. E as sobrancelhas também.

E falando em higiene, temos também aqui o famigerado sabonete “íntimo”, que estava em promoção, custando R$ 14,99.

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Quem quer que seja que decidiu que boceta tem que ter cheiro de flores definitivamente não gosta de boceta.

Embora a embalagem se gabe de ser recomendada por ginecologistas, os médicos recomendam cautela no uso do produto, desencorajam o uso diário e reforçam que a vagina tem mecanismos próprios para manter-se limpa, além de possuir uma flora bacteriana complexa que pode ser prejudicada pela introdução de substâncias estranhas. A recomendação geral é lavar a região genital com água corrente, usar roupas folgadas e roupa de baixo de algodão.

Em suma, é um produto de função questionável, que deve boa parte de suas vendas à ideia de que a genitália feminina é naturalmente suja e fedorenta. O uso constante de perfumes, sabonetes e outras substâncias que mascaram o cheiro e secreções naturais da vagina também impedem que a mulher conheça o estado natural do próprio corpo, e uma mulher que não conhece as condições normais de sua vagina não tem como reconhecer alterações que possam realmente indicar um problema de saúde.

Não existe nenhuma necessidade real e nenhum benefício em mascarar o odor natural da vulva com perfuminho de flores. Precisamos parar e nos perguntar a quem serve a nossa falta de auto-conhecimento.

Ainda lá pela região genital, encontrei esse produto para lavar calcinhas. Muitas mulheres lavam as roupas íntimas à mão, em parte para preservar uma peça que seja cara ou feita de material que não possa ser lavada a máquina, em parte por acreditar que uma calcinha suja possa “infectar” as outras roupas durante a lavada – e eu fui criada acreditando nesse segundo -, mas o que me chamou atenção nesse produto foram dois pontos em especial.

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O primeiro foi o preço do produto. O sabão líquido para roupas que usei acima como referência de preço é vendido a R$ 36,96 para um vasilhame de três litros, ou seja, R$ 12,32 o litro. O sabão para calcinhas vem em uma embalagem de 300ml e custa R$ 7,89, totalizando R$ 26,30 o litro. O fabricante do produto não disponibiliza a composição química em seu website, mas duvido bastante que a diferença seja significativa a ponto de justificar o preço duas vezes maior.

Em segundo lugar, repare na embalagem ao lado da fotografada, com o rótulo rosa. É um outro sabão de roupas da mesma marca, em uma versão “teen”. No site do fabricante vi também que eles vendem o produto em uma versão específica para lavar biquínis, e uma outra para lavar roupas esportivas. Novamente, não tenho como checar se cada um dos produtos tem uma formulação diferente, mas isso me parece ser uma simples questão de segmentação de mercado, uma técnica de publicidade que divide um público-alvo em segmentos menores, permitindo efetivamente a venda de mais produtos do mesmo tipo. Por exemplo, no caso do sabão de roupas, uma mulher que pratica esportes e tem uma filha adolescente que gosta de nadar compraria quatro garrafas de sabão ao invés de uma só.

Essa técnica de segmentação de mercado, em específico a segmentação por gênero, é muito bem explicada neste vídeo do canal The Checkout, no YouTube, que infelizmente só está disponível em inglês, mas vale uma olhada de qualquer maneira.

Passando para os produtos para a pele, temos aqui um creme que diz reduzir a celulite, vendido por R$ 54,99, e um que diz minimizar estrias, por R$ 55,99.

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Bye Bye Dinheiro.

Vamos começar pela celulite. Considero tratamentos para celulite uma maneira particularmente cruel de arrancar dinheiro das mulheres, porque a celulite não é uma condição médica. Ela não causa nenhum malefício para a saúde, e é pura e simplesmente resultado da maneira em que as células de gordura se organizam no corpo feminino.

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O diagrama acima representa as diferenças na organização das células de gordura subcutânea entre homens e mulheres. Nos homens, as células são organizadas em uma malha transversal de células de colágeno, e quando este engorda, as células se expandem e empurram a pele de maneira equilibrada. No caso da mulher, as células de gordura estão organizadas em estruturas de colágeno similares a cubos, e quando esses se expandem, pressionam a pele em pontos específicos, causando o efeito de “casca de laranja” da celulite. Essa diferença biológica permite à mulher armazenar uma quantidade maior de gordura corporal, extremamente necessária no caso de uma gravidez.

A celulite é uma característica sexual secundária feminina, e a grande maioria das mulheres possui o efeito em algum nível. O quanto ela é visível depende principalmente de fatores genéticos e da quantidade de gordura subcutânea, embora ela também seja visível em mulheres magras. Você pode usar todos os cremes do mundo, esfoliar a pele, fazer exercícios, ou até fazer procedimentos invasivos como a lipoaspiração, e se você tiver a predisposição genética para a celulite ela vai voltar. E isso vale pra praticamente todas as mulheres, de 85% a 98% segundo um estudo de 2014.

Vale a pena gastar dinheiro em tratamentos ineficazes, para tentar resolver algo que sequer é um problema?

Já no caso das estrias, elas ocorrem em situações onde há uma expansão rápida do tecido cutâneo e as células que formam a pele não conseguem acompanhar, criando uma cicatriz. É comum em casos como a gravidez, puberdade, ganho rápido de peso ou mesmo ganho rápido de massa muscular. No aspecto da saúde, como qualquer outra cicatriz, deixando a pele um pouco mais sensível mas não afetando a capacidade de regeneração e função da pele de qualquer outra maneira. Assim como outras cicatrizes, elas tendem a se tornar menos visíveis ao longo dos anos. Assim como a celulite, é uma questão puramente estética.

A eficácia dos tratamentos específicos para as estrias é questionável.

Ainda na questão da pele, encontrei esse creme, por R$ 64,99, que diz reduzir “rugas e linhas de expressão”.

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Embora homens também enruguem, a gente sabe que esse creme é pra mulher porque a embalagem é rosa.

A discriminação contra mulheres idosas é uma realidade. Ignoradas em políticas contra a violência sexual, desproporcionalmente preteridas no mercado de trabalho e, em uma sociedade que valoriza a mulher primariamente por sua juventude, aparência física e capacidade reprodutiva, são afetadas ainda mais que os homens pela pobreza e solidão na velhice. Considerando essas condições é perfeitamente compreensível que uma mulher queira evitar a qualquer custo os sinais da velhice.

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Usando dados do site de namoro OKCupid, Christian Rudder, autor do livro “Dataclysm”, descobriu que homens heterossexuais de todas as idades preferem mulheres que mal saíram da adolescência.

A eficácia dos produtos que prometem eliminar rugas questionável. Embora testes clínicos tenham demonstrado mudanças na pele e minimização da aparência das rugas, resultados similares foram atingidos com cremes hidratantes comuns, e com menos efeitos colaterais. Como no caso do sabão para roupas íntimas, a composição química do produto não está disponível no site do fabricante, o que me impossibilita de fazer uma pesquisa específica pelo princípio ativo do creme. O fabricante oferece oito produtos diferentes em sua linha “anti-idade”.

No final das contas, o fato inquestionável que o processo de envelhecimento é inevitável, e as rugas fazem parte deste processo. A existência de uma variedade tão grande de produtos se deve simplesmente ao paradigma cultural atual, onde pessoas idosas são desvalorizadas e mulheres idosas ainda mais. Esse culto à juventude e aos padrões de beleza é particularmente acentuado em um país como o Brasil, que mesmo com a atual economia deteriorada registrou mais de um milhão de cirurgias plásticas por ano nos últimos anos.

Para finalizar, temos alguns produtos de maquiagem.

O preço combinado dos cinco produtos é de R$ 77,44. A questão da maquiagem merece um post inteiro por si só, não só por ser um dos maiores símbolos associados à performance da feminilidade mas, principalmente, pela recente tendência de marketing de apropriar termos e retórica feminista para vender os cosméticos, utilizando termos como “empoderamento”, exaltando a coragem feminina e vendendo uma imagem de liberdade e sucesso profissional.

O ato de pintar o rosto está presente desde o começo da história da humanidade e se apresenta de maneiras muito diversas, com propósitos que vão desde o ritualístico e religioso até a exploração artística. No entanto, esses elementos não estão presentes na cultura da maquiagem contemporânea. O que existe é uma pressão constante para que mulheres escondam toda e qualquer imperfeição em seus rostos, usem truques de luz e sombra para disfarçar o formato de suas feições e encaixá-las em um padrão de beleza eurocêntrico – o popular “contouring”-, e escondam qualquer sinal de envelhecimento, vivência ou cansaço.

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Falando em sinais de cansaço, aqui está esse produto anti-olheiras, por R$ 45,69.

Apesar de toda a retórica feminista, imagens edificantes e da promessa do “empoderamento” e do aumento da auto-estima, o que a realidade mostra é uma pressão para esconder a aparência natural e a propagação da ideia de que nós mulheres devemos ter vergonha de sair na rua sem este disfarce. Tablóides no mundo todo publicam fotos de celebridades de “cara lavada” em tom de zombaria, como se isso fosse motivo de vergonha. Será que isso realmente é empoderador?

E, a questão principal desta postagem, para onde está indo o dinheiro que milhões de brasileiras gastam todos os dias com cosméticos? Essas empresas realmente tem o bem-estar da mulher em mente?

Nesse ponto, tive que sair da farmácia porque dois funcionários estavam me seguindo e me olhando feio, então não pude fotografar outros itens de maquiagem usados frequentemente, como bases, blushes e sombras, mas fica aí a reflexão caso alguém queira repetir o experimento.

A soma total dos preços dos itens fotografados é de R$ 411,13. O equivalente a 108 passagens de ônibus, 79 quilos de feijão, 128 litros de gasolina, ou quase metade de um salário mínimo. E embora produtos e serviços de beleza sejam vendidos usando uma retórica de carinho, auto-cuidado e amor próprio, podemos ver nos estudos linkados acima que boa parte deles sequer cumpre a função a qual se destina, e outros causam dor ou tem efeitos colaterais nocivos.

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Esse serviço de depilação de sobrancelhas se vende como um “carinho” e um luxo. E aí você paga uma pessoa pra arrancar os cabelinhos da sua cara e isso dói pra porra.

Em um país como o Brasil, onde ainda existe uma desigualdade salarial significativa e onde mulheres realizam uma parcela desproporcional do trabalho doméstico, é necessário em algum momento parar e refletir sobre como nós estamos usando nosso dinheiro e nosso tempo livre, e se as escolhas que fazemos são realmente as melhores para nosso bem-estar físico e mental.

E sim, é inegável que existem consequências para qualquer desvio da norma da sociedade. Seria ingênuo ou até mesmo malicioso negar que mulheres que se recusam a se maquiar, se depilar ou a agir de forma feminina sofrem escárnio, discriminação ou até mesmo violência. Mas temos que ter uma visão realista da nossa situação: existem empresas que querem nos vender produtos que não nos trazem nenhum benefício real, e para isso nos dizem que somos feias, fedorentas, sujas, desleixadas e preguiçosas caso não usemos os tais produtos. Ligar a televisão e assistir a comerciais de produtos de beleza é ser constantemente insultada, diminuída e tratada de maneira condescendente.

Por mais que, em certas situações, tenhamos que fazer concessões ao sistema vigente para sobreviver dentro dele, temos que ter em mente que somos suficientes. Não precisamos sentir dor e desconforto para perceber nossa própria beleza. Não precisamos gastar meio salário todo mês para amar nosso próprio corpo. Não precisamos nos olhar no espelho como se fossemos sempre um projeto incompleto, sempre necessitado de aprimoramentos e correções. Não precisamos nos podar e pintar para agradar pessoas que nos vêem como criaturas sub-humanas.

Nada disso é uma necessidade. São realidades do nosso cenário contemporâneo, mas não são necessidades. Amor-próprio real é se permitir o descanso, é alimentar seu corpo sem culpa, é se aceitar com todas as nossas pequenas imperfeições, cicatrizes, pêlos e outras marcas de animal mamífero feito de carne e osso, sem a necessidade de se cobrar para ser um ser impossível de beleza etérea. Que tenhamos sempre isso em mente.

Uma última coisa, caso o seu empregador exija o uso da maquiagem durante o horário de trabalho, ele tem a obrigação legal de providenciar o produto ou de reembolsar a empregada pela compra do mesmo, pois a exigência da maquiagem a caracteriza como uniforme. Um exemplo pode ser visto aqui.

E só pra terminar de uma maneira bem-humorada, esse foi o produto mais esquisito que encontrei naquela farmácia. É um adesivo hidratante de seios que aparentemente serve pra colar a mama na mesma altura que um sutiã a deixaria, por quase o dobro do preço de um top decente.

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Imagem censurada para evitar polêmicas no ambiente de trabalho.

Fica aí a reflexão.

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2 comentários sobre “Quanto custa ser feminina?

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