Menina Estranha

Eu era uma menina estranha, quatro anos de idade e selvagem, arrancando laços e tiaras, sujando de terra meus vestidos coloridos. Eu transformava paredes em florestas com uma caixa de giz-de-cera, desenhando histórias sobre feras fantásticas que devoravam homens. Eu enterrava meus dentes de leite na pele de garotos valentões, eu mesmo uma pequena fera, gritando e esbravejando e tão sarcástica quanto possível para uma criança de quatro anos. Eu nunca quis ser uma princesa, eu queria ser um cachorro, um tigre, um jacaré, um dragão cuspidor de fogo, algo com presas e garras afiadas, algo que as pessoas não achassem tão irritantemente fofo e delicado.

Eu era uma menina estranha, nove anos de idade e uma moleca, resolvendo meus problemas com meus punhos, carregando pedras, tocos de lápis e brinquedos em meus bolsos. Matava o tempo com videogames, super-heróis e dinossauros, escrevendo histórias sobre aventuras épicas, terras distantes e inimigos terríveis. A maior parte de minhas personagens eram meninos, pois eu havia concluído que meninas não participavam de aventuras. Era estranho para uma menina desejar coisas como essas, desejar correr e escalar, ter joelhos esfolados e pés sujos, querer lutar e explorar, ou ao menos foi isso que as outras meninas me disseram, deixando claro que eu não era como ela. Mas eu também não era como os meninos. Eu estava em algum ponto médio entre estes dois mundos, sem fazer parte de nenhum deles.

Eu era uma menina estranha, treze anos de idade e solitária. Meu rosto mergulhado em livros, tentando me distrair da fúria, alimentada por hormônios e precariamente reprimida, que vivia dentro de mim. Ninguém me avisou que ser uma menina adolescente era um mau negócio, que enfiar um punho na cara arrogante de um moleque que acabou de agarrar minha bunda era agora socialmente inaceitável, mas o garoto estava automaticamente perdoado, afinal, “meninos são assim mesmo”. Ninguém me avisou que maturidade seria sinônimo de passividade. Ninguém me preparou para o súbito aumento de expectativas que aconteceu como que do dia para a noite e que, enquanto meu corpo, traidor, crescia e sangrava e assumia formas estranhas, eu deveria tentar lutar contra mim mesma. Me cobrir, me aparar, me raspar, me pintar, e tudo isso me parecia tão fútil. Meu corpo era algo monstruoso. Ele não queria ser aprazível da maneira que me era requisitada. Eu nunca consegui domá-lo, nunca consegui me tornar uma versão bonsai de mim mesma, pequena e portátil.

Eu era uma menina estranha, uma mulher falha, meio-fera e, acima de tudo, feia. Quatorze anos de idade e tão, tão confusa, me perguntando por que toda vez que uma amiga me abraçava ou segurava minha mão eu sentia uma onda de emoções contraditórias, ao mesmo tempo desejando puxá-la mais perto e empurrá-la pra longe de mim, e no final das contas ficando imobilizada, congelada no lugar como um coelho apavorado, fazendo-a acreditar que eu não queria ser tocada.

Eu deixava que ela acreditasse nisso, porque era mais fácil. Eu não tinha um nome pra o que quer que fosse esse fenômeno estranho que estava acontecendo comigo, mas eu sabia que era errado. Eu sabia que algo em mim era fundamentalmente, profundamente errado, e era melhor nem pensar no assunto. Nisso, no entanto, eu falhei miseravelmente, e era impossível ignorar as emoções contraditórias, malignas, pecadoras, que ferviam embaixo da minha pele, implorando para virem à tona. Não fazia sentido algum. Meninas não pensam em outras meninas dessa maneira. Meninas não tocam outras meninas desse jeito. Meninas não beijam outras meninas.

A não ser, talvez, as meninas estranhas.

E talvez meninas estranhas também possam ter aventuras. Talvez meninas estranhas possam lutar e sujar as roupas de terra. Ou, talvez, não seja assim tão estranho para uma menina desejar ser livre. Talvez não seja assim tão estranho para uma menina, estranha ou não, amar outras meninas.

E foi exatamente o que eu fiz.

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