Vênus

Aviso: esse post contém imagens de mulheres nuas em um contexto artístico/histórico. Se você está em um ambiente onde imagens de mamilos podem te causar problemas, prossiga com cautela.


Estava lá eu sossegada numa sexta-feira qualquer, quando me aparece no celular uma notificação do messenger do Facebook. Era um cara que não me tinha adicionada, e não tinha nenhum amigo em comum. Ele comentava que tinha lido um dos meus textos, o infame “Por que você quer se parecer com um homem?“, e pedia para permissão para “publicá-lo”.

Imediatamente meu sentido sapatão apitou. Em primeiro lugar, o texto já está público. O que esse indivíduo quis dizer com “publicar”? Em segundo, por que cargas d’água um homem ia se interessar por um texto onde eu deixo bem claro o quão pouco eu me importo com homens e suas opiniões? Fiquei com a pulga atrás da orelha e fui checar o Facebook do sujeito.

Na foto de perfil, um senhor de meia-idade com uma sutil pança de cerveja despontando sob uma jaqueta de couro, um par de óculos escuros e uma barba branca bem-aparada fazia pose de mau, se apoiando em um muscle car quadradão. A foto era em preto-e-branco e parecia ter sido tirada com uma câmera de alta qualidade. Taquei o link do post na caixa de mensagem, falei pro tiozão postar nas redes sociais se quisesse e fechei a janela, esperando que esse fosse o final da interação.

O tiozão agradece e imediatamente segue com a pergunta: “Onde você mora?”

O sentido sapatão apitou de novo.

Já ressabiada e meio hostil, soltei um “não é da sua conta”, com um palavreado levemente mais polido. O sujeito pede desculpas e diz que queria saber se eu gostaria de participar de seu projeto artístico. Diz ser fotógrafo, e manda um link para o Instagram.

Respirei fundo, revirei os olhos e cliquei. Encontrei exatamente o que eu esperava.

O álbum continha dezenas de fotos de mulheres jovens, nuas e depiladas, fotografadas em poses femininas, com colunas arqueadas e lábios entreabertos. Algumas, em poses tímidas, cobriam os seios e a genitália com as mãos ou com lençóis brancos ou tecidos translúcidos. Outras tinham os mamilos cobertos por pequenas tarjas pretas. A maioria estava deitada em camas. Todas foram fotografadas em branco-e-preto, sob uma iluminação suave e difusa que acentuava suas silhuetas e curvas.

“Estou fazendo um projeto social”, o tiozão explicou. “Quero ajudar as mulheres a se sentirem confortáveis com seus corpos. Sou feminista”. Junto a cada foto havia um relato escrito pela fotografada, falando sobre suas dificuldades em viver em seus corpos, sua luta para existir como mulheres em um mundo nos hostiliza e seu processo de auto-aceitação. Contavam histórias de discriminação e traumas de infância.

Em um dos comentários abaixo da fotografia de uma mulher engatinhando sobre uma cama de casal desarrumada, as nádegas nuas ocupando o ponto focal principal da foto, o tiozão explicita que qualquer mulher pode participar do projeto, mas para isso terá que ir até seu estúdio para ser fotografada.

Levemente enojada, mas nem um pouco surpresa, deixei claro para o sujeito que não tinha desejo algum de ter meu nome ou minhas palavras associadas com o projeto e, muito polidamente, deixei claro também o meu ceticismo quanto ao valor que um projeto onde um homem fotografa mulheres nuas com menos da metade de sua idade tem como ação feminista.

O cara agradece a atenção e encerra a conversa.

Ou foi o que pensei, porque três minutos depois o tiozão foi possuído pela força incontrolável do mansplaining e soltou a seguinte mensagem:

Tiozão safado fazendo um mansplaining básico.

O que, obviamente, rendeu um belo dum block.

No entanto, achei que a história ainda dava muito pano pra manga, especialmente pela situação ser tão comum. Então vamos destrinchar essa mensagem, esse “projeto artístico” e essa pose de liberalzão good vibes feminista libertador do corpo das mulheres.

Até porque isso é tudo balela.

Quer você queira ou não, tiozão bizarro do Facebook, o seu trabalho é apenas mais um capítulo em uma longa história de retratos de corpos nus femininos feitos por homens. E sim, nus femininos. Embora mulheres sejam, obviamente, seres humanos, coincidentemente todas as suas fotos de seres humanos são do sexo feminino. Isso não é coincidência. Assim como não é coincidência de que a grande maioria das retratadas é muito jovem, algumas mal saídas da adolescência e praticamente todas abaixo dos 30 anos.

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Vamos dar uma segunda olhada nessa tabela feita a partir da base de dados do OKCupid que mostra como tiozões de 5o anos vão atrás de moças de 22.

Vale a pena mencionar também que a grande maioria das moças fotografadas é magra, branca e convencionalmente atraente. Isso não é surpreendente. Ao retratar mulheres jovens, brancas e magras em poses femininas e vulneráveis, você está se encaixando na tradição milenar do uso do nu artístico para representar o ideal de beleza física da época, uma tradição que vem desde as Vênus pré-históricas.

Vênus de Willendorf
A Vênus de Willendorf, uma estatueta paleolítica encontrada na Áustria, possivelmente era utilizada como um amuleto ou ídolo relacionado à fertilidade. Estima-se que tenha sido esculpida de 22000 a 24000 anos atrás.

O retrato da forma humana nua tem uma história longa e diversa, incluindo ídolos paleolíticos, estátuas gregas clássicas, o Adão nu de Michelangelo estendendo a mão ao seu criador, os nus barrocos com seus contrastes acentuados, nus impressionistas, expressionistas, cubistas, surrealistas, modernistas e contemporâneos.

Enquanto os nus masculinos foram historicamente retratados como símbolos de força e virilidade, figuras de deuses e guerreiros, retratando proeza marcial e poder, ou mesmo mártires, representando um ideal de retidão moral, os nus femininos são retratados de uma maneira completamente diferente ao longo dos séculos.

A imagem clássica do nu feminino na arte ocidental é a da Vênus, nomenclatura derivada do nome romano da deusa Afrodite, divindade associada ao amor e à beleza. Na escultura grega arcaica, aproximadamente até o século 6 a.C., imagens masculinas eram retratadas nuas, enquanto as femininas eram retratadas vestidas. Para os gregos arcaicos, a nudez masculina era uma maneira de exibir força e atleticismo, atributos que acreditavam que mulheres não possuíssem. Já no século 4 a.C, o escultor Praxiteles criou o que estudiosos definem como um dos primeiros nus femininos, representando a a deusa Afrodite, inaugurando uma tendências fundamentais da arte ocidental por milênios.

Vênus Diversas
As Vênus gregas clássicas mostram o padrão de beleza feminina da época.

As Vênus eram retratadas frequentemente cobrindo os seios e a genitália, como se houvessem sido pegas de surpresa. Algumas, como a Vênus de Medici, a primeira à esquerda na imagem acima, são representadas ao lado de imagens de criaturas marinhas, aludindo ao mito do nascimento da deusa, nascida das ondas causadas quando o pênis mutilado do deus Urano foi lançado ao mar.

A imagem da Vênus continuou popular durante o Império Romano, onde surgiu também a imagem da Vênus reclinada, retratada em uma posição deitada que ainda hoje é referenciada extensamente em editoriais de moda. Em oposição aos nus masculinos, representados em posturas dinâmicas e agressivas, a Vênus é representada de maneira passiva ou mesmo defensiva, no caso das imagens onde a figura se cobre para preservar sua modéstia. A Vênus é a essência da imagem feminina representada por um olhar masculino, uma figura de beleza etérea e serena, representando o ideal feminino da época.

A representação do nu feminino teve um hiato durante o período medieval, aparecendo esporadicamente em ilustrações bíblicas onde a nudez era relevante, como imagens de Eva no Jardim do Éden, por exemplo. No período Renascentista, com o interesse renovado em imagens clássicas, a figura da Vênus voltou com toda a força. O nu feminino, a partir de então, foi um dos temas mais frequentemente usados na arte ocidental até os dias atuais.

Venus de Botticelli
“O Nascimento de Vênus”, do pintor florentino Sandro Botticelli, é uma das obras mais famosas e mais parodiadas nesse tema.

A partir do início do século 16 houve uma quebra da tradição na representação do nu feminino onde, embora ainda com referências clássicas, começam a surgir imagens de mulheres nuas que não tem nenhuma ligação com mitologia ou textos sagrados, que não são deusas ou alegorias. O nu, enfim, apenas pelo nu. A Vênus Adormecida de Giorgione é considerada uma das primeiras obras dessa nova tendência.

venusadormecida

A mão esquerda da figura posicionada sobre a vulva dá uma leve sugestão de erotismo para a imagem, e as curvas da figura nua harmonizam com as do cenário. Assim como uma paisagem, a imagem do nu feminino é representada como um objeto a ser contemplado e apreciado, feito por um homem e para consumo masculino. A pintura a óleo européia tradicional do deixa bastante clara essa intenção voyeurística em centenas de figuras onde a mulher nua representada na tela parece estar ciente de ser observada. Seja de maneira tímida ou provocativa, o nu feminino frequentemente tem o olhar direcionado para fora da pintura. Ela não está inserida realmente naquela cena, não está presente em seu próprio contexto ou história. Ela não está no meio de alguma atividade ou ação, ela é completamente passiva – por vezes até adormecida-, um objeto feito para ser observado e consumido pelo público.

O crítico de arte John Berger define bem essa dinâmica em sua série para a BBC, “Ways of Seeing”:

“…Mas sempre, na tradição européia, o nu implica uma consciência sobre estar sendo observada pelo espectador. Elas não estão peladas como são, elas estão peladas como você as vê. Muitas vezes, como no popular tema que é Susana e os Anciões, esse é o verdadeiro tema da pintura. Nós nos unimos aos anciões para espioná-la. Ela olha para trás, para nós olhando para ela. Às vezes, a mulher, Susana, se olha em um espelho, imaginando para si como os homens a vêem. Ela se vê, antes de tudo, como uma paisagem, o que significa ‘uma paisagem para os homens’. Assim, o espelho tornou-se um símbolo da vaidade das mulheres. Contudo, a hipocrisia masculina é óbvia: você pinta uma mulher nua porque você gosta de olhar para ela, você coloca um espelho na mão dela, e você chama a pintura de ‘Vaidade’, assim condenando moralmente a mulher a qual você mesmo despiu em uma pintura para o seu próprio prazer. E isso é repetir exatamente o exemplo bíblico de culpar a mulher.”

Com essa informação em mente eu pergunto, tiozão fotógrafo do Facebook, será que o seu projeto funciona mesmo como uma maneira de conectar mulheres aos seus corpos? Será mesmo que a sua fotografia é mesmo transgressora? Ou você é apenas mais um homem produzindo imagens de mulheres como quem fotografa paisagens, produzindo imagens do ideal de beleza vigente em poses passivas para consumo do espectador, apenas mais um em um legado de milênios?

Ainda em “Ways of Seeing”, no final da série, Berger compara a função social das pinturas a óleo europeias com o material publicitário atual, traçando paralelos entre os dois e demonstrando a maneira com que a publicidade alude às composições, poses e elementos visuais da pintura europeia. E podemos também traçar paralelos entre a estética do material publicitário contemporâneo e os elementos visuais tipicamente presentes nos nus femininos fotografados por homens nos dias atuais. Eles emprestam, especialmente, a estética dos editoriais de moda.

A moda é outra indústria que, embora tenha como público-alvo principal as mulheres, é controlada quase inteiramente por homens. Os maiores nomes da área são masculinos, e são homens em sua maioria que controlam a maneira com que as imagens das modelos serão retratadas. Assim como na pintura tradicional europeia, a moda é uma mais uma instância onde homens criam imagens de mulheres da maneira que mais lhes agrada. Analisando alguns exemplos de fotografias de modelos nuas, podemos perceber tanto as influências clássicas quanto como esse tipo de imagem influenciou os pretensos fotógrafos revolucionários de Facebook. A fotografia abaixo, da modelo britânica Cara Delevigne, é uma re-criação moderna da Vênus Reclinada, em posição quase idêntica à da Vênus Adormecida de Giorgione.

Cara Delevigne, fotografada em 2013 por Peter Lindbergh
Cara Delevigne, fotografada em 2013 por Peter Lindbergh

Ou, ainda, essa foto de 1999 da famosa modelo Gisele Bündchen, na época com apenas 19 anos. Vi essa pose específica sendo repetida em diversas fotos do Instagram do tiozão. A modelo, seguindo a tradição do nu feminino, olha por cima do ombro e encara o espectador, ciente de estar sendo observada.

Gisele Bündchen, fotografada em 1999 por Patrick Demarchelier.
Gisele Bündchen, fotografada em 1999 por Patrick Demarchelier.

Outro aspecto que é importante mencionar é a maneira com que a fotografia de moda, especialmente a partir dos anos 80~90, sofreu grande influência da estética da pornografia. A acadêmica e historiadora feminista Sheila Jeffreys descreveu extensamente essa relação em seu livro “Beauty and Misogyny“, que contém um capítulo especificamente sobre o fenômeno do “pornochic”. A escritora descreve como, à medida em que a pornografia e a prostituição se tornavam indústrias mainstream durante o final do século, certas práticas que antes eram apenas vistas em imagens pornográficas se tornaram presentes nas imagens publicitárias e da indústria da moda, criando novas expectativas e padrões de beleza para as mulheres. Jeffreys comenta especificamente a maneira com que estas indústrias utilizam a nudez em sua linguagem visual.

“Uma maneira em que a publicidade está seguindo a pornografia é que a nudez está se tornando um padrão. Seios agora são expostos rotineiramente, seja completamente ou cobertos por tecidos translúcidos que não escondem nada. Os estilistas e fotógrafos usam a nudez precisamente para atrair a atenção da mídia. É improvável que essas roupas reveladoras sejam muito populares entre as mulheres, mas isso não importa em uma época onde as grifes de moda estão tão desesperadas por clientes que qualquer tipo de atenção que possa aumentar suas vendas de perfumes e bolsas é válida. Uma dessas fotos, cobrindo um quarto da parte de trás do jornal  The Age em Melbourne, mostrava uma mulher vestindo apenas mangas parciais e uma saia baixa em tecido opaco. Fora isso, a modelo estava nua exceto por um avental de tecido transparente cobrindo a parte de cima de seu corpo. A legenda sob a imagem diz, ‘A modelo veste um figurino feito pelo novo estilista Toni Maticevski no Festival de Moda de Melbourne. A coleção feminina de Maticevski têm cortes e caimentos inortodoxos, pregas e bainhas assimétricas’ (Express, 2002). Não são as bainhas que fizeram a foto ser escolhida e é improvável que as mulheres estejam correndo para comprar o avental”.

Entre as práticas herdadas da pornografia se destacam a maquiagem pesada, a depilação completa da vulva, os saltos extremamente altos (Jeffreys tem um capítulo em seu livro dedicado inteiramente aos saltos altos e o fetiche masculino com mulheres que não podem correr ou andar propriamente), até práticas mais danosas, como os implantes de silicone nos seios cirurgias para remover partes da vulva, como os pequenos lábios e o capuz do clitóris, além de um padrão de magreza extrema.

É possível perceber essa influência da pornografia-filtrada-pela-moda no projeto do tiozão do Facebook. Além de todas as modelos terem vulvas completamente depiladas, além das pernas e axilas, muitas das poses eram notadamente artificiais e desconfortáveis, com colunas retorcidas para enquadrar melhor seios e nádegas. Algumas fotografias tinham um aspecto mais perturbador. Uma jovem foi fotografada deitada na cama, abraçando um travesseiro entre as pernas e se cobrindo com as mãos em posição defensiva. Outra tinha o rosto coberto com um pedaço de véu semitranslúcido, enfiado dentro da boca, ocultando a face e transformando-a em apenas um orifício.

Também é importante apontar que nenhum dos elementos que compõem as imagens é problemático por si só. A fotografia em preto e branco pode ser usada para criar imagens poderosíssimas, removendo a cor como elemento de distração e focando somente nas formas, luz e contraste. Sou particularmente atraída pela fotografia de arquitetura em preto e branco que, em suas melhores instâncias, tem o poder de encontrar beleza em elementos urbanos cotidianos que ignoramos rotineiramente. A luz suave pode ser usada para criar uma sensação etérea nas fotos, e funciona particularmente bem em fotografias de pequenos objetos e elementos naturais como plantas e insetos.

Da mesma maneira, o nu feminino pode ser usado na fotografia de uma maneira que quebre a tradição da mulher como paisagem/objeto para ser observado, e mais importante ainda, quebrando a linha histórica que nos leva da Vênus ao editorial de moda pornochic. Um exemplo do qual eu gosto bastante são algumas das imagens da “Body Issue” da revista ESPN The Magazine, que mostra fotos de atletas de ambos os sexos nus. Embora algumas das fotos das atletas femininas tenham uma construção mais sexualizada, várias delas são fotografadas em poses dinâmicas, exibindo a musculatura das modelos e demonstrando sua força e potência atlética, remetendo ao estilo das estátuas gregas arcaicas de atletas e guerreiros.

Retornemos então à justificativa inicial que o tiozão deu ao seu projeto:

Tiozão safado fazendo um mansplaining básico.

Ao longo desse post pudemos determinar que sim, são nus femininos, confirmado a partir de uma perspectiva histórica. Não, não são feitos com respeito, visto que o estilo e as escolhas estéticas vêm de uma tradição de uso da mulher como objeto decorativo feito de homens para homens. Neste mesmo viés, podemos afirmar que não há absolutamente nada de transgressor no projeto, afinal ele é essencialmente um herdeiro da tradição artística milenar européia, e quanto a tirar a erotização, analisamos também as influências pornográficas na composição da obra.

Então, só te corrigindo, tiozão do Facebook, tudo que você falou é balela.

E quanto a “ser somente o portador”, bela maneira de tirar a sua responsabilidade pela maneira com que você escolheu retratar essas mulheres. Porque sim, você pode vir com esse discursinho neoliberal de liberdade de expressão, mas mesmo que a própria mulher escolha a sua pose, você escolheu os enquadramentos, você escolheu a iluminação, você escolheu o cenário, você escolheu retratar essas modelos, meninas várias décadas mais novas que você, nuas, porque você queria vê-las nuas. E você decidiu postar as fotos no Instagram junto com o nome completo dessas moças, sem ao menos pensar se um possível empregador no futuro iria fazer uma busca pelo nome da candidata e encontrar uma foto dela nua. E é você que está ganhando fama e participando de exposições em galerias de arte com esse seu projeto.

Me explique, tiozão do Facebook, como que esse projeto beneficia mulheres? Por que você não está usando sua experiência e sua fama para criar oportunidades para mulheres fotógrafas, ao invés de usar corpos de mulheres para avançar sua própria carreira? Você está doando dinheiro ou recursos para abrigos ou outros serviços que auxiliam mulheres em situações de violência doméstica? Suas modelos contam histórias de abusos e traumas profundos, motivo pelo qual você as procurou em primeiro lugar. Você está encaminhando essas mulheres para algum tipo de apoio psicológico real, ou você só está se aproveitando dessa vulnerabilidade para satisfazer seus próprios interesses?

E ainda falando de respeito, você acha mesmo que a maneira que você me abordou foi respeitosa? Você acha mesmo que trocar três frases com uma mulher que você acabou de conhecer e logo em seguida pedir para fotografá-la nua é uma atitude respeitosa?

Você é um colecionador de carne, tiozão do Facebook. Você viu um texto escrito por uma mulher que despertou seu interesse e sua primeira reação foi desejar adicionar essa mulher, nua e vulnerável, à sua coleção pessoal. Você não demonstrou o mínimo interesse em interagir comigo como um par intelectual, ou em discutir minhas ideias. Você, antes mesmo de conversar comigo como um ser humano, já me imaginou nua. Você, como um macho mediano qualquer, se excita quando vê uma mulher aflita.

Você é apenas mais um entre milhares de fotógrafos homens que se sentem no direito de despir e expor mulheres em nome de uma “arte” vazia e egocêntrica. O seu tipo, o fotógrafo creepy que coleciona nus femininos em preto-e-branco, é tão comum que é representado frequentemente em filmes, séries, livros e até em videogames.

Você é apenas mais um pseudo-artista comum e medíocre, repetindo o que outros fizeram séculos antes de você, incapaz de real transgressão ou mesmo de autocrítica.

A verdade é que o único motivo que eu, especificamente, despertei o seu interesse é porque você não tem ninguém como eu em sua coleção. Eu sou uma novidade. Mais que isso, eu sou um desafio. Você leu meu texto onde eu declaro orgulhosa e abertamente que eu não pertenço a homem algum e que eu rejeito sua visão de mundo, e isso te incomodou. Você quis me ver nua e vulnerável na sua cama para me provar errada. Como um caçador em um safári, você quis capturar a fera mais exótica, a mais selvagem e indomada, e adicioná-la à sua fileira de troféus.

E quando você recebeu um não, você sentiu a necessidade de se justificar. Porque, no fundo, nem mesmo você acredita nas suas próprias desculpas.

No fim das contas, meu único desejo é que um dia nos tornemos todas Ártemis, Hécate, Medusa, e nenhuma mulher aceite se despir para ser sua Vênus.

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4 comentários sobre “Vênus

  1. a mais perfeita resposta para um machistinha de merda, sonhando que seu pau mas principalmente CÉREBRO mole suba com alguma mulher, q após as sessões malditas de pseudo-arte, resolva dar para elas. Não necessitamos de PORTADORES nenhum. Minha voz, meu corpo, meu clitóris é meu próprio berro.

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