Uma Rosa e um Parabéns

Nas últimas horas do dia 31 de Dezembro de 2016, último dia do ano, na cidade de Campinas, estado de São Paulo, um homem invadiu a festa de Ano Novo de Isamara Filier, com quem havia sido casado, e a assassinou com uma pistola 9 milímetros. Assassinou também seu próprio filho de oito anos, João Victor Filier, e mais dez outros familiares de Isamara, em sua maioria mulheres. O homem cometeu esse assassinato em massa brutal em nome de sua paternidade. Ele não pôde aceitar que a mulher e o filho não lhe pertenciam, e quando Isamara decidiu se divorciar, começou a planejar sua vingança. Na noite de Ano Novo matou doze pessoas e depois se suicidou. Deixou para trás um manifesto, onde chamava Isamara e as outras mulheres da família que a auxiliaram de “vadias” e “vagabundas”, e repetia jargões conservadores típicos das seções de comentários da Internet.

O Massacre de Campinas é uma das primeiras instâncias onde a imprensa brasileira usou o termo “feminicídio“, embora a qualificação já esteja prevista em lei desde 2015. Nos comentários do Facebook e de outras redes sociais, homens defendiam o assassino e acusavam a vítima de ser “pilantra” e a criticavam por privar o feminicida do contato com sua prole. Trechos do manifesto do assassino circulavam no WhatsApp, compartilhados em grupos de maridos e amigos, os mesmos onde se compartilham promoções de cerveja e fotos de mulheres nuas. “É errado matar”, diziam os homens, “Mas…”.

Sempre um “mas”.

“Mas ela provocou ele”, dizem os homens. “Mas ela também errou”. “Mas ela pode ter mentido”.

“Não tem como saber”, dizem os homens. “Tem que ver os dois lados”.

Reações previsíveis e comuns para um caso, infelizmente, também comum. Embora o Massacre de Campinas tenha chocado o país por sua brutalidade e pelo número de vítimas, um homem assassinar uma mulher que ele considera sua propriedade, incluindo muitas vezes sua prole, é fato corriqueiro.

De acordo com um levantamento de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, estima-se que entre os anos de 2001 e 2011 aconteceram mais de 50.ooo feminicídios – casos específicos onde uma mulher é assassinada especificamente por ser mulher – no território brasileiro. A pesquisa também apresenta o seguinte dado:

Os parceiros íntimos são os principais assassinos de mulheres. Aproximadamente 40% de todos os homicídios de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. Em contraste, essa proporção é próxima a 6% entre os homens assassinados. Ou seja, a proporção de mulheres assassinadas por parceiro é 6,6 vezes maior do que a proporção de homens assassinados por parceira.

Ainda nesse ano, poucos dias atrás, tivemos um caso de triplo feminicídio no estado de Santa Catarina, onde um homem de 24 anos assassinou a facadas sua ex-namorada e mãe de seu filho, Rafaela Horbach, uma adolescente de apenas 15 anos. Assassinou também Julyane e Fabiane Horbach, irmãs da vítima. Rafaela estava movendo uma ação judicial contra o assassino, que se recusava a pagar pensão alimentícia. O homem alegou que a vítima não o deixava ver a criança.

No Facebook, homens discutem se é aceitável ou não um marmanjo de 24 anos engravidar uma menina dez anos mais nova. Um rapaz com uma foto sem camisa como imagem de perfil chama as mulheres nos comentários de “feministas imundas” e as acusa de “mimimi”.

No final do mês passado, um ex-jogador de futebol, preso em 2010 por assassinar e ocultar o corpo de sua amante e mãe de seu filho, Eliza Samudio, foi solto após seis anos encarcerado. O homem não queria pagar pensão, e alegava que o filho não era seu – o que foi provado posteriormente por um teste de DNA. Após sua soltura, o ex-jogador foi recebido por uma horda de fãs, que comemora e tira selfies, e recebeu nove propostas de emprego de times de futebol. Sônia Moura, mãe de Eliza Samudio, teme por sua vida e pela vida de seu neto.

Por que eu estou falando sobre esses casos?

Porque hoje é dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, e precisamos colocar a nossa situação em um contexto. Hoje é o dia em que escolas e empresas presenteiam alunas e funcionárias com rosas ou bombons e colocam decorações cor-de-rosa e lilás nas paredes. Talvez hoje algum homem que você conhece venha te dar parabéns. Talvez algum homem faça aquela velha piadinha de que “hoje é o seu dia mas os outros 364 são dos homens”. Provavelmente alguém vai mencionar a história do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist ou talvez alguém fale do sufrágio feminino e da conquista do direito ao voto. Muito vai se falar das conquistas passadas das mulheres. Mas, fora da bolha feminista, dos grupos de Facebook e das coletivas, o dia é tratado de maneira similar ao Dia das Mães ou ao Dia dos Namorados, com um agradinho e um tapinha nas costas.

E aí entram os exemplos acima, todos desse ano que mal começou, para colocar em contexto o motivo pelo qual feministas falam que vivemos em um patriarcado, um sistema onde o pai governa e mulheres são sua propriedade. Negado o seu direito ao trono, o pai, vingativo, destrói a mulher que julga ter lhe negado o que é seu por direito de nascença, por direito divino – afinal deus também é um grande papai celestial – e por direito de força. Ele destrói a mulher e sua prole, pois considera que elas lhe pertencem, para serem tratadas da maneira que lhe bem entender. Essa é a mentalidade por trás desses assassinatos, e essa é a mentalidade dos homens comuns que, embora não sejam eles mesmos violentos, os defendem e justificam.

E esses homens são os mesmos que nos dão rosas e parabéns, são nossos irmãos, nossos pais, primos, netos, filhos, amigos, maridos, namorados, colegas de trabalho. Cheque o perfil de qualquer cara que posta alguma atrocidade no Facebook, justificando o injustificável, culpando a vítima, chamando mulheres de “vadias” e “vagabundas”, e você vai encontrar dezenas de mulheres em seu círculo social.

Fora que, entre flores e chocolates, a data frequentemente tem sua origem real ignorada. Originalmente proposta como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, a origem da data vem de protestos de operárias, especialmente da indústria têxtil, no início do século 20. Em manifestações de cunho explicitamente socialista, as trabalhadoras reivindicavam melhores salários e jornadas de trabalho. Cem anos depois, o dia, originalmente proposto para promover discussões e organizar ações políticas sobre as necessidades específicas da classe feminina, acabou se tornando apenas mais uma data festiva, com empresas de todas as áreas oferecendo incentivo ao consumo de bens supérfluos e oferecendo descontos em itens relacionados à performance da feminilidade, como cosméticos e depilação com cera quente. A linguagem das propagandas e “homenagens” elogiam atributos como beleza, delicadeza e sensibilidade, e acabam assumindo um tom extremamente condescendente.

Nesse ano, especificamente, a organização norte-americana que promoveu a Marcha de Mulheres em Washington D.C, em Janeiro de 2017, como protesto às políticas do boneco laranja obsceno presidente Donald Trump, está promovendo um “dia sem mulheres“, uma chamada para uma greve mundial de mulheres onde nos recusaríamos, por todo o dia 8 de Março, a fazer qualquer trabalho remunerado ou não-remunerado, baseada em ações como a greve de mulheres da Islândia, que ocorreu em 1975, ou a mais recente mobilização na Polônia contra o endurecimento de leis anti-aborto.

O precedente para a efetividade de mobilizações como essa existe, e fico feliz de ver uma atitude mais politizada em relação ao Dia Internacional da Mulher, mais alinhada com o contexto histórico da data. Minha preocupação é que o evento não atinja massa crítica o bastante para ser efetivo. Aqui no Brasil, com a nossa taxa de desemprego particularmente alta, muitas mulheres não podem se dar ao luxo de perder um dia de trabalho – eu mesma inclusa. De qualquer maneira, considero a iniciativa louvável. Mais informações sobre a mobilização no Brasil podem ser encontradas aqui.

Independente da participação ou não em alguma ação organizada, acho essencial que tomemos de volta o Dia Internacional da Mulher como um evento político e não como uma data comercial. Afinal, ainda há muito trabalho a se fazer. A legislação brasileira não permite o aborto, negando à mulher o direito ao controle do próprio corpo e tratando como criminosas mulheres que tem abortos espontâneos. Mulheres brasileiras tem baixa representatividade na política. Nosso congresso está votando para reduzir a pena por estupro de vulnerável. Violência doméstica e sexual são parte da realidade da mulher brasileira. E essa situação se agrava mais ainda quando se considera intersecções entre a misoginia e as discriminações por raça e classe social. Afinal, segundo a pesquisa citada anteriormente, 61% das vítimas de feminicídio são negras, e o crime acontece com mais frequência em regiões mais pobres.

Para essa situação, rosas e elogios não bastam. Especialmente quando estes vem de corporações que estão usando o Dia da Mulher como desculpa pra vender tranqueiras cor-de-rosa, ou de homens que três segundos depois vão chamar alguma mulher de vadia no Facebook. O 8 de Março é, historicamente, um dia de luta. Devemos, sim, relembrar as conquistas históricas das mulheres ao longo do século passado. Mas devemos, acima de tudo, nos manter alertas quanto às ameaças do presente. Como diz uma citação famosa, atribuída a Simone de Beauvoir, “nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

Hoje é 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Cem anos depois, nós ainda temos muito pelo que lutar. É extremamente provável que nenhuma de nós vá viver o bastante para ver um dia em que a misoginia seja uma brutalidade do passado e a violência masculina contra a mulher não molde as nossas vidas, e é desanimador viver retrocesso atrás de retrocesso, enquanto os homens ao nosso redor não se acanham em mostrar o desprezo que sentem por nós. Mas não podemos nos deixar dominar pela apatia. Não podemos desistir. O preço seria alto demais.

Nós merecemos mais que uma rosa e um parabéns.

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