Uma Rosa e um Parabéns

Nas últimas horas do dia 31 de Dezembro de 2016, último dia do ano, na cidade de Campinas, estado de São Paulo, um homem invadiu a festa de Ano Novo de Isamara Filier, com quem havia sido casado, e a assassinou com uma pistola 9 milímetros. Assassinou também seu próprio filho de oito anos, João Victor Filier, e mais dez outros familiares de Isamara, em sua maioria mulheres. O homem cometeu esse assassinato em massa brutal em nome de sua paternidade. Ele não pôde aceitar que a mulher e o filho não lhe pertenciam, e quando Isamara decidiu se divorciar, começou a planejar sua vingança. Na noite de Ano Novo matou doze pessoas e depois se suicidou. Deixou para trás um manifesto, onde chamava Isamara e as outras mulheres da família que a auxiliaram de “vadias” e “vagabundas”, e repetia jargões conservadores típicos das seções de comentários da Internet.

O Massacre de Campinas é uma das primeiras instâncias onde a imprensa brasileira usou o termo “feminicídio“, embora a qualificação já esteja prevista em lei desde 2015. Nos comentários do Facebook e de outras redes sociais, homens defendiam o assassino e acusavam a vítima de ser “pilantra” e a criticavam por privar o feminicida do contato com sua prole. Trechos do manifesto do assassino circulavam no WhatsApp, compartilhados em grupos de maridos e amigos, os mesmos onde se compartilham promoções de cerveja e fotos de mulheres nuas. “É errado matar”, diziam os homens, “Mas…”.

Sempre um “mas”.

“Mas ela provocou ele”, dizem os homens. “Mas ela também errou”. “Mas ela pode ter mentido”.

“Não tem como saber”, dizem os homens. “Tem que ver os dois lados”.

Reações previsíveis e comuns para um caso, infelizmente, também comum. Embora o Massacre de Campinas tenha chocado o país por sua brutalidade e pelo número de vítimas, um homem assassinar uma mulher que ele considera sua propriedade, incluindo muitas vezes sua prole, é fato corriqueiro.

De acordo com um levantamento de dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA, estima-se que entre os anos de 2001 e 2011 aconteceram mais de 50.ooo feminicídios – casos específicos onde uma mulher é assassinada especificamente por ser mulher – no território brasileiro. A pesquisa também apresenta o seguinte dado:

Os parceiros íntimos são os principais assassinos de mulheres. Aproximadamente 40% de todos os homicídios de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo. Em contraste, essa proporção é próxima a 6% entre os homens assassinados. Ou seja, a proporção de mulheres assassinadas por parceiro é 6,6 vezes maior do que a proporção de homens assassinados por parceira.

Ainda nesse ano, poucos dias atrás, tivemos um caso de triplo feminicídio no estado de Santa Catarina, onde um homem de 24 anos assassinou a facadas sua ex-namorada e mãe de seu filho, Rafaela Horbach, uma adolescente de apenas 15 anos. Assassinou também Julyane e Fabiane Horbach, irmãs da vítima. Rafaela estava movendo uma ação judicial contra o assassino, que se recusava a pagar pensão alimentícia. O homem alegou que a vítima não o deixava ver a criança.

No Facebook, homens discutem se é aceitável ou não um marmanjo de 24 anos engravidar uma menina dez anos mais nova. Um rapaz com uma foto sem camisa como imagem de perfil chama as mulheres nos comentários de “feministas imundas” e as acusa de “mimimi”.

No final do mês passado, um ex-jogador de futebol, preso em 2010 por assassinar e ocultar o corpo de sua amante e mãe de seu filho, Eliza Samudio, foi solto após seis anos encarcerado. O homem não queria pagar pensão, e alegava que o filho não era seu – o que foi provado posteriormente por um teste de DNA. Após sua soltura, o ex-jogador foi recebido por uma horda de fãs, que comemora e tira selfies, e recebeu nove propostas de emprego de times de futebol. Sônia Moura, mãe de Eliza Samudio, teme por sua vida e pela vida de seu neto.

Por que eu estou falando sobre esses casos?

Porque hoje é dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, e precisamos colocar a nossa situação em um contexto. Hoje é o dia em que escolas e empresas presenteiam alunas e funcionárias com rosas ou bombons e colocam decorações cor-de-rosa e lilás nas paredes. Talvez hoje algum homem que você conhece venha te dar parabéns. Talvez algum homem faça aquela velha piadinha de que “hoje é o seu dia mas os outros 364 são dos homens”. Provavelmente alguém vai mencionar a história do incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist ou talvez alguém fale do sufrágio feminino e da conquista do direito ao voto. Muito vai se falar das conquistas passadas das mulheres. Mas, fora da bolha feminista, dos grupos de Facebook e das coletivas, o dia é tratado de maneira similar ao Dia das Mães ou ao Dia dos Namorados, com um agradinho e um tapinha nas costas.

E aí entram os exemplos acima, todos desse ano que mal começou, para colocar em contexto o motivo pelo qual feministas falam que vivemos em um patriarcado, um sistema onde o pai governa e mulheres são sua propriedade. Negado o seu direito ao trono, o pai, vingativo, destrói a mulher que julga ter lhe negado o que é seu por direito de nascença, por direito divino – afinal deus também é um grande papai celestial – e por direito de força. Ele destrói a mulher e sua prole, pois considera que elas lhe pertencem, para serem tratadas da maneira que lhe bem entender. Essa é a mentalidade por trás desses assassinatos, e essa é a mentalidade dos homens comuns que, embora não sejam eles mesmos violentos, os defendem e justificam.

E esses homens são os mesmos que nos dão rosas e parabéns, são nossos irmãos, nossos pais, primos, netos, filhos, amigos, maridos, namorados, colegas de trabalho. Cheque o perfil de qualquer cara que posta alguma atrocidade no Facebook, justificando o injustificável, culpando a vítima, chamando mulheres de “vadias” e “vagabundas”, e você vai encontrar dezenas de mulheres em seu círculo social.

Fora que, entre flores e chocolates, a data frequentemente tem sua origem real ignorada. Originalmente proposta como Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, a origem da data vem de protestos de operárias, especialmente da indústria têxtil, no início do século 20. Em manifestações de cunho explicitamente socialista, as trabalhadoras reivindicavam melhores salários e jornadas de trabalho. Cem anos depois, o dia, originalmente proposto para promover discussões e organizar ações políticas sobre as necessidades específicas da classe feminina, acabou se tornando apenas mais uma data festiva, com empresas de todas as áreas oferecendo incentivo ao consumo de bens supérfluos e oferecendo descontos em itens relacionados à performance da feminilidade, como cosméticos e depilação com cera quente. A linguagem das propagandas e “homenagens” elogiam atributos como beleza, delicadeza e sensibilidade, e acabam assumindo um tom extremamente condescendente.

Nesse ano, especificamente, a organização norte-americana que promoveu a Marcha de Mulheres em Washington D.C, em Janeiro de 2017, como protesto às políticas do boneco laranja obsceno presidente Donald Trump, está promovendo um “dia sem mulheres“, uma chamada para uma greve mundial de mulheres onde nos recusaríamos, por todo o dia 8 de Março, a fazer qualquer trabalho remunerado ou não-remunerado, baseada em ações como a greve de mulheres da Islândia, que ocorreu em 1975, ou a mais recente mobilização na Polônia contra o endurecimento de leis anti-aborto.

O precedente para a efetividade de mobilizações como essa existe, e fico feliz de ver uma atitude mais politizada em relação ao Dia Internacional da Mulher, mais alinhada com o contexto histórico da data. Minha preocupação é que o evento não atinja massa crítica o bastante para ser efetivo. Aqui no Brasil, com a nossa taxa de desemprego particularmente alta, muitas mulheres não podem se dar ao luxo de perder um dia de trabalho – eu mesma inclusa. De qualquer maneira, considero a iniciativa louvável. Mais informações sobre a mobilização no Brasil podem ser encontradas aqui.

Independente da participação ou não em alguma ação organizada, acho essencial que tomemos de volta o Dia Internacional da Mulher como um evento político e não como uma data comercial. Afinal, ainda há muito trabalho a se fazer. A legislação brasileira não permite o aborto, negando à mulher o direito ao controle do próprio corpo e tratando como criminosas mulheres que tem abortos espontâneos. Mulheres brasileiras tem baixa representatividade na política. Nosso congresso está votando para reduzir a pena por estupro de vulnerável. Violência doméstica e sexual são parte da realidade da mulher brasileira. E essa situação se agrava mais ainda quando se considera intersecções entre a misoginia e as discriminações por raça e classe social. Afinal, segundo a pesquisa citada anteriormente, 61% das vítimas de feminicídio são negras, e o crime acontece com mais frequência em regiões mais pobres.

Para essa situação, rosas e elogios não bastam. Especialmente quando estes vem de corporações que estão usando o Dia da Mulher como desculpa pra vender tranqueiras cor-de-rosa, ou de homens que três segundos depois vão chamar alguma mulher de vadia no Facebook. O 8 de Março é, historicamente, um dia de luta. Devemos, sim, relembrar as conquistas históricas das mulheres ao longo do século passado. Mas devemos, acima de tudo, nos manter alertas quanto às ameaças do presente. Como diz uma citação famosa, atribuída a Simone de Beauvoir, “nunca se esqueça que basta uma crise política, econômica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos não são permanentes. Você terá que manter-se vigilante durante toda a sua vida.”

Hoje é 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Cem anos depois, nós ainda temos muito pelo que lutar. É extremamente provável que nenhuma de nós vá viver o bastante para ver um dia em que a misoginia seja uma brutalidade do passado e a violência masculina contra a mulher não molde as nossas vidas, e é desanimador viver retrocesso atrás de retrocesso, enquanto os homens ao nosso redor não se acanham em mostrar o desprezo que sentem por nós. Mas não podemos nos deixar dominar pela apatia. Não podemos desistir. O preço seria alto demais.

Nós merecemos mais que uma rosa e um parabéns.

Vênus

Aviso: esse post contém imagens de mulheres nuas em um contexto artístico/histórico. Se você está em um ambiente onde imagens de mamilos podem te causar problemas, prossiga com cautela.


Estava lá eu sossegada numa sexta-feira qualquer, quando me aparece no celular uma notificação do messenger do Facebook. Era um cara que não me tinha adicionada, e não tinha nenhum amigo em comum. Ele comentava que tinha lido um dos meus textos, o infame “Por que você quer se parecer com um homem?“, e pedia para permissão para “publicá-lo”.

Imediatamente meu sentido sapatão apitou. Em primeiro lugar, o texto já está público. O que esse indivíduo quis dizer com “publicar”? Em segundo, por que cargas d’água um homem ia se interessar por um texto onde eu deixo bem claro o quão pouco eu me importo com homens e suas opiniões? Fiquei com a pulga atrás da orelha e fui checar o Facebook do sujeito.

Na foto de perfil, um senhor de meia-idade com uma sutil pança de cerveja despontando sob uma jaqueta de couro, um par de óculos escuros e uma barba branca bem-aparada fazia pose de mau, se apoiando em um muscle car quadradão. A foto era em preto-e-branco e parecia ter sido tirada com uma câmera de alta qualidade. Taquei o link do post na caixa de mensagem, falei pro tiozão postar nas redes sociais se quisesse e fechei a janela, esperando que esse fosse o final da interação.

O tiozão agradece e imediatamente segue com a pergunta: “Onde você mora?”

O sentido sapatão apitou de novo.

Já ressabiada e meio hostil, soltei um “não é da sua conta”, com um palavreado levemente mais polido. O sujeito pede desculpas e diz que queria saber se eu gostaria de participar de seu projeto artístico. Diz ser fotógrafo, e manda um link para o Instagram.

Respirei fundo, revirei os olhos e cliquei. Encontrei exatamente o que eu esperava.

O álbum continha dezenas de fotos de mulheres jovens, nuas e depiladas, fotografadas em poses femininas, com colunas arqueadas e lábios entreabertos. Algumas, em poses tímidas, cobriam os seios e a genitália com as mãos ou com lençóis brancos ou tecidos translúcidos. Outras tinham os mamilos cobertos por pequenas tarjas pretas. A maioria estava deitada em camas. Todas foram fotografadas em branco-e-preto, sob uma iluminação suave e difusa que acentuava suas silhuetas e curvas.

“Estou fazendo um projeto social”, o tiozão explicou. “Quero ajudar as mulheres a se sentirem confortáveis com seus corpos. Sou feminista”. Junto a cada foto havia um relato escrito pela fotografada, falando sobre suas dificuldades em viver em seus corpos, sua luta para existir como mulheres em um mundo nos hostiliza e seu processo de auto-aceitação. Contavam histórias de discriminação e traumas de infância.

Em um dos comentários abaixo da fotografia de uma mulher engatinhando sobre uma cama de casal desarrumada, as nádegas nuas ocupando o ponto focal principal da foto, o tiozão explicita que qualquer mulher pode participar do projeto, mas para isso terá que ir até seu estúdio para ser fotografada.

Levemente enojada, mas nem um pouco surpresa, deixei claro para o sujeito que não tinha desejo algum de ter meu nome ou minhas palavras associadas com o projeto e, muito polidamente, deixei claro também o meu ceticismo quanto ao valor que um projeto onde um homem fotografa mulheres nuas com menos da metade de sua idade tem como ação feminista.

O cara agradece a atenção e encerra a conversa.

Ou foi o que pensei, porque três minutos depois o tiozão foi possuído pela força incontrolável do mansplaining e soltou a seguinte mensagem:

Tiozão safado fazendo um mansplaining básico.

O que, obviamente, rendeu um belo dum block.

No entanto, achei que a história ainda dava muito pano pra manga, especialmente pela situação ser tão comum. Então vamos destrinchar essa mensagem, esse “projeto artístico” e essa pose de liberalzão good vibes feminista libertador do corpo das mulheres.

Até porque isso é tudo balela.

Quer você queira ou não, tiozão bizarro do Facebook, o seu trabalho é apenas mais um capítulo em uma longa história de retratos de corpos nus femininos feitos por homens. E sim, nus femininos. Embora mulheres sejam, obviamente, seres humanos, coincidentemente todas as suas fotos de seres humanos são do sexo feminino. Isso não é coincidência. Assim como não é coincidência de que a grande maioria das retratadas é muito jovem, algumas mal saídas da adolescência e praticamente todas abaixo dos 30 anos.

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Vamos dar uma segunda olhada nessa tabela feita a partir da base de dados do OKCupid que mostra como tiozões de 5o anos vão atrás de moças de 22.

Vale a pena mencionar também que a grande maioria das moças fotografadas é magra, branca e convencionalmente atraente. Isso não é surpreendente. Ao retratar mulheres jovens, brancas e magras em poses femininas e vulneráveis, você está se encaixando na tradição milenar do uso do nu artístico para representar o ideal de beleza física da época, uma tradição que vem desde as Vênus pré-históricas.

Vênus de Willendorf
A Vênus de Willendorf, uma estatueta paleolítica encontrada na Áustria, possivelmente era utilizada como um amuleto ou ídolo relacionado à fertilidade. Estima-se que tenha sido esculpida de 22000 a 24000 anos atrás.

O retrato da forma humana nua tem uma história longa e diversa, incluindo ídolos paleolíticos, estátuas gregas clássicas, o Adão nu de Michelangelo estendendo a mão ao seu criador, os nus barrocos com seus contrastes acentuados, nus impressionistas, expressionistas, cubistas, surrealistas, modernistas e contemporâneos.

Enquanto os nus masculinos foram historicamente retratados como símbolos de força e virilidade, figuras de deuses e guerreiros, retratando proeza marcial e poder, ou mesmo mártires, representando um ideal de retidão moral, os nus femininos são retratados de uma maneira completamente diferente ao longo dos séculos.

A imagem clássica do nu feminino na arte ocidental é a da Vênus, nomenclatura derivada do nome romano da deusa Afrodite, divindade associada ao amor e à beleza. Na escultura grega arcaica, aproximadamente até o século 6 a.C., imagens masculinas eram retratadas nuas, enquanto as femininas eram retratadas vestidas. Para os gregos arcaicos, a nudez masculina era uma maneira de exibir força e atleticismo, atributos que acreditavam que mulheres não possuíssem. Já no século 4 a.C, o escultor Praxiteles criou o que estudiosos definem como um dos primeiros nus femininos, representando a a deusa Afrodite, inaugurando uma tendências fundamentais da arte ocidental por milênios.

Vênus Diversas
As Vênus gregas clássicas mostram o padrão de beleza feminina da época.

As Vênus eram retratadas frequentemente cobrindo os seios e a genitália, como se houvessem sido pegas de surpresa. Algumas, como a Vênus de Medici, a primeira à esquerda na imagem acima, são representadas ao lado de imagens de criaturas marinhas, aludindo ao mito do nascimento da deusa, nascida das ondas causadas quando o pênis mutilado do deus Urano foi lançado ao mar.

A imagem da Vênus continuou popular durante o Império Romano, onde surgiu também a imagem da Vênus reclinada, retratada em uma posição deitada que ainda hoje é referenciada extensamente em editoriais de moda. Em oposição aos nus masculinos, representados em posturas dinâmicas e agressivas, a Vênus é representada de maneira passiva ou mesmo defensiva, no caso das imagens onde a figura se cobre para preservar sua modéstia. A Vênus é a essência da imagem feminina representada por um olhar masculino, uma figura de beleza etérea e serena, representando o ideal feminino da época.

A representação do nu feminino teve um hiato durante o período medieval, aparecendo esporadicamente em ilustrações bíblicas onde a nudez era relevante, como imagens de Eva no Jardim do Éden, por exemplo. No período Renascentista, com o interesse renovado em imagens clássicas, a figura da Vênus voltou com toda a força. O nu feminino, a partir de então, foi um dos temas mais frequentemente usados na arte ocidental até os dias atuais.

Venus de Botticelli
“O Nascimento de Vênus”, do pintor florentino Sandro Botticelli, é uma das obras mais famosas e mais parodiadas nesse tema.

A partir do início do século 16 houve uma quebra da tradição na representação do nu feminino onde, embora ainda com referências clássicas, começam a surgir imagens de mulheres nuas que não tem nenhuma ligação com mitologia ou textos sagrados, que não são deusas ou alegorias. O nu, enfim, apenas pelo nu. A Vênus Adormecida de Giorgione é considerada uma das primeiras obras dessa nova tendência.

venusadormecida

A mão esquerda da figura posicionada sobre a vulva dá uma leve sugestão de erotismo para a imagem, e as curvas da figura nua harmonizam com as do cenário. Assim como uma paisagem, a imagem do nu feminino é representada como um objeto a ser contemplado e apreciado, feito por um homem e para consumo masculino. A pintura a óleo européia tradicional do deixa bastante clara essa intenção voyeurística em centenas de figuras onde a mulher nua representada na tela parece estar ciente de ser observada. Seja de maneira tímida ou provocativa, o nu feminino frequentemente tem o olhar direcionado para fora da pintura. Ela não está inserida realmente naquela cena, não está presente em seu próprio contexto ou história. Ela não está no meio de alguma atividade ou ação, ela é completamente passiva – por vezes até adormecida-, um objeto feito para ser observado e consumido pelo público.

O crítico de arte John Berger define bem essa dinâmica em sua série para a BBC, “Ways of Seeing”:

“…Mas sempre, na tradição européia, o nu implica uma consciência sobre estar sendo observada pelo espectador. Elas não estão peladas como são, elas estão peladas como você as vê. Muitas vezes, como no popular tema que é Susana e os Anciões, esse é o verdadeiro tema da pintura. Nós nos unimos aos anciões para espioná-la. Ela olha para trás, para nós olhando para ela. Às vezes, a mulher, Susana, se olha em um espelho, imaginando para si como os homens a vêem. Ela se vê, antes de tudo, como uma paisagem, o que significa ‘uma paisagem para os homens’. Assim, o espelho tornou-se um símbolo da vaidade das mulheres. Contudo, a hipocrisia masculina é óbvia: você pinta uma mulher nua porque você gosta de olhar para ela, você coloca um espelho na mão dela, e você chama a pintura de ‘Vaidade’, assim condenando moralmente a mulher a qual você mesmo despiu em uma pintura para o seu próprio prazer. E isso é repetir exatamente o exemplo bíblico de culpar a mulher.”

Com essa informação em mente eu pergunto, tiozão fotógrafo do Facebook, será que o seu projeto funciona mesmo como uma maneira de conectar mulheres aos seus corpos? Será mesmo que a sua fotografia é mesmo transgressora? Ou você é apenas mais um homem produzindo imagens de mulheres como quem fotografa paisagens, produzindo imagens do ideal de beleza vigente em poses passivas para consumo do espectador, apenas mais um em um legado de milênios?

Ainda em “Ways of Seeing”, no final da série, Berger compara a função social das pinturas a óleo europeias com o material publicitário atual, traçando paralelos entre os dois e demonstrando a maneira com que a publicidade alude às composições, poses e elementos visuais da pintura europeia. E podemos também traçar paralelos entre a estética do material publicitário contemporâneo e os elementos visuais tipicamente presentes nos nus femininos fotografados por homens nos dias atuais. Eles emprestam, especialmente, a estética dos editoriais de moda.

A moda é outra indústria que, embora tenha como público-alvo principal as mulheres, é controlada quase inteiramente por homens. Os maiores nomes da área são masculinos, e são homens em sua maioria que controlam a maneira com que as imagens das modelos serão retratadas. Assim como na pintura tradicional europeia, a moda é uma mais uma instância onde homens criam imagens de mulheres da maneira que mais lhes agrada. Analisando alguns exemplos de fotografias de modelos nuas, podemos perceber tanto as influências clássicas quanto como esse tipo de imagem influenciou os pretensos fotógrafos revolucionários de Facebook. A fotografia abaixo, da modelo britânica Cara Delevigne, é uma re-criação moderna da Vênus Reclinada, em posição quase idêntica à da Vênus Adormecida de Giorgione.

Cara Delevigne, fotografada em 2013 por Peter Lindbergh
Cara Delevigne, fotografada em 2013 por Peter Lindbergh

Ou, ainda, essa foto de 1999 da famosa modelo Gisele Bündchen, na época com apenas 19 anos. Vi essa pose específica sendo repetida em diversas fotos do Instagram do tiozão. A modelo, seguindo a tradição do nu feminino, olha por cima do ombro e encara o espectador, ciente de estar sendo observada.

Gisele Bündchen, fotografada em 1999 por Patrick Demarchelier.
Gisele Bündchen, fotografada em 1999 por Patrick Demarchelier.

Outro aspecto que é importante mencionar é a maneira com que a fotografia de moda, especialmente a partir dos anos 80~90, sofreu grande influência da estética da pornografia. A acadêmica e historiadora feminista Sheila Jeffreys descreveu extensamente essa relação em seu livro “Beauty and Misogyny“, que contém um capítulo especificamente sobre o fenômeno do “pornochic”. A escritora descreve como, à medida em que a pornografia e a prostituição se tornavam indústrias mainstream durante o final do século, certas práticas que antes eram apenas vistas em imagens pornográficas se tornaram presentes nas imagens publicitárias e da indústria da moda, criando novas expectativas e padrões de beleza para as mulheres. Jeffreys comenta especificamente a maneira com que estas indústrias utilizam a nudez em sua linguagem visual.

“Uma maneira em que a publicidade está seguindo a pornografia é que a nudez está se tornando um padrão. Seios agora são expostos rotineiramente, seja completamente ou cobertos por tecidos translúcidos que não escondem nada. Os estilistas e fotógrafos usam a nudez precisamente para atrair a atenção da mídia. É improvável que essas roupas reveladoras sejam muito populares entre as mulheres, mas isso não importa em uma época onde as grifes de moda estão tão desesperadas por clientes que qualquer tipo de atenção que possa aumentar suas vendas de perfumes e bolsas é válida. Uma dessas fotos, cobrindo um quarto da parte de trás do jornal  The Age em Melbourne, mostrava uma mulher vestindo apenas mangas parciais e uma saia baixa em tecido opaco. Fora isso, a modelo estava nua exceto por um avental de tecido transparente cobrindo a parte de cima de seu corpo. A legenda sob a imagem diz, ‘A modelo veste um figurino feito pelo novo estilista Toni Maticevski no Festival de Moda de Melbourne. A coleção feminina de Maticevski têm cortes e caimentos inortodoxos, pregas e bainhas assimétricas’ (Express, 2002). Não são as bainhas que fizeram a foto ser escolhida e é improvável que as mulheres estejam correndo para comprar o avental”.

Entre as práticas herdadas da pornografia se destacam a maquiagem pesada, a depilação completa da vulva, os saltos extremamente altos (Jeffreys tem um capítulo em seu livro dedicado inteiramente aos saltos altos e o fetiche masculino com mulheres que não podem correr ou andar propriamente), até práticas mais danosas, como os implantes de silicone nos seios cirurgias para remover partes da vulva, como os pequenos lábios e o capuz do clitóris, além de um padrão de magreza extrema.

É possível perceber essa influência da pornografia-filtrada-pela-moda no projeto do tiozão do Facebook. Além de todas as modelos terem vulvas completamente depiladas, além das pernas e axilas, muitas das poses eram notadamente artificiais e desconfortáveis, com colunas retorcidas para enquadrar melhor seios e nádegas. Algumas fotografias tinham um aspecto mais perturbador. Uma jovem foi fotografada deitada na cama, abraçando um travesseiro entre as pernas e se cobrindo com as mãos em posição defensiva. Outra tinha o rosto coberto com um pedaço de véu semitranslúcido, enfiado dentro da boca, ocultando a face e transformando-a em apenas um orifício.

Também é importante apontar que nenhum dos elementos que compõem as imagens é problemático por si só. A fotografia em preto e branco pode ser usada para criar imagens poderosíssimas, removendo a cor como elemento de distração e focando somente nas formas, luz e contraste. Sou particularmente atraída pela fotografia de arquitetura em preto e branco que, em suas melhores instâncias, tem o poder de encontrar beleza em elementos urbanos cotidianos que ignoramos rotineiramente. A luz suave pode ser usada para criar uma sensação etérea nas fotos, e funciona particularmente bem em fotografias de pequenos objetos e elementos naturais como plantas e insetos.

Da mesma maneira, o nu feminino pode ser usado na fotografia de uma maneira que quebre a tradição da mulher como paisagem/objeto para ser observado, e mais importante ainda, quebrando a linha histórica que nos leva da Vênus ao editorial de moda pornochic. Um exemplo do qual eu gosto bastante são algumas das imagens da “Body Issue” da revista ESPN The Magazine, que mostra fotos de atletas de ambos os sexos nus. Embora algumas das fotos das atletas femininas tenham uma construção mais sexualizada, várias delas são fotografadas em poses dinâmicas, exibindo a musculatura das modelos e demonstrando sua força e potência atlética, remetendo ao estilo das estátuas gregas arcaicas de atletas e guerreiros.

Retornemos então à justificativa inicial que o tiozão deu ao seu projeto:

Tiozão safado fazendo um mansplaining básico.

Ao longo desse post pudemos determinar que sim, são nus femininos, confirmado a partir de uma perspectiva histórica. Não, não são feitos com respeito, visto que o estilo e as escolhas estéticas vêm de uma tradição de uso da mulher como objeto decorativo feito de homens para homens. Neste mesmo viés, podemos afirmar que não há absolutamente nada de transgressor no projeto, afinal ele é essencialmente um herdeiro da tradição artística milenar européia, e quanto a tirar a erotização, analisamos também as influências pornográficas na composição da obra.

Então, só te corrigindo, tiozão do Facebook, tudo que você falou é balela.

E quanto a “ser somente o portador”, bela maneira de tirar a sua responsabilidade pela maneira com que você escolheu retratar essas mulheres. Porque sim, você pode vir com esse discursinho neoliberal de liberdade de expressão, mas mesmo que a própria mulher escolha a sua pose, você escolheu os enquadramentos, você escolheu a iluminação, você escolheu o cenário, você escolheu retratar essas modelos, meninas várias décadas mais novas que você, nuas, porque você queria vê-las nuas. E você decidiu postar as fotos no Instagram junto com o nome completo dessas moças, sem ao menos pensar se um possível empregador no futuro iria fazer uma busca pelo nome da candidata e encontrar uma foto dela nua. E é você que está ganhando fama e participando de exposições em galerias de arte com esse seu projeto.

Me explique, tiozão do Facebook, como que esse projeto beneficia mulheres? Por que você não está usando sua experiência e sua fama para criar oportunidades para mulheres fotógrafas, ao invés de usar corpos de mulheres para avançar sua própria carreira? Você está doando dinheiro ou recursos para abrigos ou outros serviços que auxiliam mulheres em situações de violência doméstica? Suas modelos contam histórias de abusos e traumas profundos, motivo pelo qual você as procurou em primeiro lugar. Você está encaminhando essas mulheres para algum tipo de apoio psicológico real, ou você só está se aproveitando dessa vulnerabilidade para satisfazer seus próprios interesses?

E ainda falando de respeito, você acha mesmo que a maneira que você me abordou foi respeitosa? Você acha mesmo que trocar três frases com uma mulher que você acabou de conhecer e logo em seguida pedir para fotografá-la nua é uma atitude respeitosa?

Você é um colecionador de carne, tiozão do Facebook. Você viu um texto escrito por uma mulher que despertou seu interesse e sua primeira reação foi desejar adicionar essa mulher, nua e vulnerável, à sua coleção pessoal. Você não demonstrou o mínimo interesse em interagir comigo como um par intelectual, ou em discutir minhas ideias. Você, antes mesmo de conversar comigo como um ser humano, já me imaginou nua. Você, como um macho mediano qualquer, se excita quando vê uma mulher aflita.

Você é apenas mais um entre milhares de fotógrafos homens que se sentem no direito de despir e expor mulheres em nome de uma “arte” vazia e egocêntrica. O seu tipo, o fotógrafo creepy que coleciona nus femininos em preto-e-branco, é tão comum que é representado frequentemente em filmes, séries, livros e até em videogames.

Você é apenas mais um pseudo-artista comum e medíocre, repetindo o que outros fizeram séculos antes de você, incapaz de real transgressão ou mesmo de autocrítica.

A verdade é que o único motivo que eu, especificamente, despertei o seu interesse é porque você não tem ninguém como eu em sua coleção. Eu sou uma novidade. Mais que isso, eu sou um desafio. Você leu meu texto onde eu declaro orgulhosa e abertamente que eu não pertenço a homem algum e que eu rejeito sua visão de mundo, e isso te incomodou. Você quis me ver nua e vulnerável na sua cama para me provar errada. Como um caçador em um safári, você quis capturar a fera mais exótica, a mais selvagem e indomada, e adicioná-la à sua fileira de troféus.

E quando você recebeu um não, você sentiu a necessidade de se justificar. Porque, no fundo, nem mesmo você acredita nas suas próprias desculpas.

No fim das contas, meu único desejo é que um dia nos tornemos todas Ártemis, Hécate, Medusa, e nenhuma mulher aceite se despir para ser sua Vênus.

Menina Estranha

Eu era uma menina estranha, quatro anos de idade e selvagem, arrancando laços e tiaras, sujando de terra meus vestidos coloridos. Eu transformava paredes em florestas com uma caixa de giz-de-cera, desenhando histórias sobre feras fantásticas que devoravam homens. Eu enterrava meus dentes de leite na pele de garotos valentões, eu mesmo uma pequena fera, gritando e esbravejando e tão sarcástica quanto possível para uma criança de quatro anos. Eu nunca quis ser uma princesa, eu queria ser um cachorro, um tigre, um jacaré, um dragão cuspidor de fogo, algo com presas e garras afiadas, algo que as pessoas não achassem tão irritantemente fofo e delicado.

Eu era uma menina estranha, nove anos de idade e uma moleca, resolvendo meus problemas com meus punhos, carregando pedras, tocos de lápis e brinquedos em meus bolsos. Matava o tempo com videogames, super-heróis e dinossauros, escrevendo histórias sobre aventuras épicas, terras distantes e inimigos terríveis. A maior parte de minhas personagens eram meninos, pois eu havia concluído que meninas não participavam de aventuras. Era estranho para uma menina desejar coisas como essas, desejar correr e escalar, ter joelhos esfolados e pés sujos, querer lutar e explorar, ou ao menos foi isso que as outras meninas me disseram, deixando claro que eu não era como ela. Mas eu também não era como os meninos. Eu estava em algum ponto médio entre estes dois mundos, sem fazer parte de nenhum deles.

Eu era uma menina estranha, treze anos de idade e solitária. Meu rosto mergulhado em livros, tentando me distrair da fúria, alimentada por hormônios e precariamente reprimida, que vivia dentro de mim. Ninguém me avisou que ser uma menina adolescente era um mau negócio, que enfiar um punho na cara arrogante de um moleque que acabou de agarrar minha bunda era agora socialmente inaceitável, mas o garoto estava automaticamente perdoado, afinal, “meninos são assim mesmo”. Ninguém me avisou que maturidade seria sinônimo de passividade. Ninguém me preparou para o súbito aumento de expectativas que aconteceu como que do dia para a noite e que, enquanto meu corpo, traidor, crescia e sangrava e assumia formas estranhas, eu deveria tentar lutar contra mim mesma. Me cobrir, me aparar, me raspar, me pintar, e tudo isso me parecia tão fútil. Meu corpo era algo monstruoso. Ele não queria ser aprazível da maneira que me era requisitada. Eu nunca consegui domá-lo, nunca consegui me tornar uma versão bonsai de mim mesma, pequena e portátil.

Eu era uma menina estranha, uma mulher falha, meio-fera e, acima de tudo, feia. Quatorze anos de idade e tão, tão confusa, me perguntando por que toda vez que uma amiga me abraçava ou segurava minha mão eu sentia uma onda de emoções contraditórias, ao mesmo tempo desejando puxá-la mais perto e empurrá-la pra longe de mim, e no final das contas ficando imobilizada, congelada no lugar como um coelho apavorado, fazendo-a acreditar que eu não queria ser tocada.

Eu deixava que ela acreditasse nisso, porque era mais fácil. Eu não tinha um nome pra o que quer que fosse esse fenômeno estranho que estava acontecendo comigo, mas eu sabia que era errado. Eu sabia que algo em mim era fundamentalmente, profundamente errado, e era melhor nem pensar no assunto. Nisso, no entanto, eu falhei miseravelmente, e era impossível ignorar as emoções contraditórias, malignas, pecadoras, que ferviam embaixo da minha pele, implorando para virem à tona. Não fazia sentido algum. Meninas não pensam em outras meninas dessa maneira. Meninas não tocam outras meninas desse jeito. Meninas não beijam outras meninas.

A não ser, talvez, as meninas estranhas.

E talvez meninas estranhas também possam ter aventuras. Talvez meninas estranhas possam lutar e sujar as roupas de terra. Ou, talvez, não seja assim tão estranho para uma menina desejar ser livre. Talvez não seja assim tão estranho para uma menina, estranha ou não, amar outras meninas.

E foi exatamente o que eu fiz.

Quanto custa ser feminina?

A pressão para manter uma aparência e atitude feminina é um fato constante da vida das mulheres, e todas nós estamos cientes das consequências que podemos sofrer ao descumprir o papel de gênero imposto pela sociedade. As consequências afetam nossa vida familiar, nossas relações amorosas, nossa carreira profissional. Mulheres que se recusam a se apresentar de maneira feminina são consideradas imaturas, preguiçosas, desleixadas, ou mesmo – o pior dos insultos – lésbicas. O policiamento é ainda mais ferrenho quando se trata de mulheres gordas, mulheres negras, ou qualquer uma outra que não se encaixe no inatingível e preconceituoso padrão de beleza das revistas de moda.

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Ter órgãos internos é sinal de que você anda meio descuidada.

Esse policiamento constante da própria aparência e comportamento é custoso para as mulheres em diversos aspectos. Em primeiro lugar, é importante apontar o investimento significativo de tempo necessário para a manutenção da performance feminina, chamado de “tripla jornada” pela escritora Naomi Wolf em seu livro “O Mito da Beleza“. Em conjunto com a primeira e a segunda jornadas, se referindo ao trabalho fora de casa e ao trabalho doméstico, Wolf identifica a pressão para atingir um ideal impossível de beleza como mais uma ferramenta usada para exaurir mulheres de seu tempo livre, como pode-se ver nesse trecho do livro:

Por todo o Ocidente, o emprego das mulheres foi estimulado pela ampla erosão da base industrial e pela tendência na direção das tecnologias da informação e dos serviços. A redução nas taxas de nascimento do pós-guerra e a conseqüente falta de mão-de-obra especializada resulta no fato de as mulheres serem realmente bem-vindas à força de trabalho, como burras-de-carga descartáveis, sem sindicatos, com baixos salários e restritas a um gueto de funções “femininas”. O economista Marvin Harris descreveu as mulheres como uma mão-de-obra “dócil e instruída”, portanto “candidatas desejáveis aos empregos das áreas de informação e de processamento criadas pelas modernas indústrias de serviços”. As qualidades que mais convém aos empregadores nas trabalhadoras dessa categoria são o amor-próprio reduzido, a tolerância para com tarefas repetitivas e monótonas, a falta de ambição, o alto nível de conformidade, o maior respeito pelos homens (que são seus superiores) do que pelas mulheres (que trabalham a seu lado) e pouca sensação de controle sobre suas próprias vidas. Num estágio superior, as gerentes de nível médio são aceitáveis, desde que se identifiquem com o mundo masculino e não façam muitos esforços para subir. Algumas poucas mulheres simbólicas no topo da corporação, nas quais a tradição feminina esteja totalmente extinta, são úteis. O mito da beleza é a última e melhor técnica de treinamento para forjar uma força de trabalho dessa natureza. Ele cumpre todas essas funções durante o expediente e ainda acrescenta uma tripla jornada que se encaixa no seu tempo livre.

Além do custo em horas, é preciso considerar também o custo psicológico da imposição de um padrão de comportamento submisso e da constante vigilância da própria aparência. Por exemplo, em sua tese de conclusão de curso para a Occidental College, Kate Handley observou que mulheres alteram seu comportamento em um restaurante quando estão em companhia de homens. A pesquisa de Handley, feita a partir da observação de 18 mesas em um restaurante dentro de um período de dez horas, demonstra que, quando estão em companhia masculina, mulheres tendem a preferir alimentos de baixo valor calórico, gesticulam menos e consomem o alimento mais vagarosamente e com mordidas menores. A pesquisadora observou também que, quando estão em companhia de outras mulheres, estas tendem a comer mais rápido, conversar mais animadamente, e até mesmo falar de boca cheia. Embora a pesquisa não tenha sido feita de maneira estritamente científica, com uma amostragem pequena, o auto-policiamento constante da própria feminilidade é uma tendência que já foi notada em outros estudos. Acadêmicos da Brigham Young University e da universidade de Princeton descobriram que mulheres tendem a falar menos quando estão em presença de um número maior de homens, e um estudo do National Bureau of Economic Research mostra que mulheres tendem a minimizar suas aspirações profissionais quando estão conversando com um possível parceiro romântico, acreditando que ambição profissional e um salário alto as tornariam menos atraentes. Acredito que a maioria de nós frequentemente observe situações semelhantes às descritas acima em nosso dia-a-dia.

O terceiro custo da imposição da feminilidade é o mais fácil de mensurar: o custo financeiro. Dados da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo mostram que o povo brasileiro como um todo gastou 20,3 bilhões de reais em serviços relacionados à beleza no ano de 2012. Embora esses dados não sejam apresentados, é razoável assumir que a maior parte desse dinheiro vem de bolsos femininos, já que não são os homens os clientes habituais de manicures, pedicures, cabeleireiros e serviços de depilação.

Para levantar uma reflexão sobre o custo financeiro da performance feminina, resolvi fazer um experimento informal. Entrei em uma farmácia próxima ao meu local de trabalho, em um bairro de classe média da capital paulistana, e chequei os preços de alguns itens relacionados à “beleza feminina”.

Para que seja possível ter um parâmetro para julgar os preços dos itens, vou postar alguns valores de referência, lembrando que todos eles se referem a São Paulo, capital, em Janeiro de 2017.

Um salário mínimo: R$ 937,00

Uma passagem de ônibus/metrô/trem: R$ 3,80

Um litro de gasolina: R$ 3,20

Cinco quilos de arroz marca “Tio João”: R$ 16,69

Um quilo de feijão carioca marca “Camil”: R$ 5,19

Um Big Mac: R$ 16,50

Uma garrafa de detergente 500ml marca “Ypê”: R$ 2,02

Uma garrafa de 3 litros de sabão líquido marca “OMO”: R$ 36,96

Tendo esses valores em mente, também estabeleci uma regra para sempre considerar o item mais barato de cada categoria disponível na farmácia, e não considerei cosméticos de preços exorbitantes, daqueles que ficam em prateleiras separadas por “grife”. Acredito que esses não sejam itens consumidos com frequência pela maioria das brasileiras.

Vamos ao nosso primeiro item: lâminas de barbear.

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A gente sabe que essas são para delicadas pernocas femininas e não para rudes barbas másculas porque elas são rosinhas e tem a palavra “sensitive” na embalagem.

A depilação feminina é uma das imposições mais ferrenhas da sociedade, em especial no Brasil, conhecido internacionalmente pelas virilhas “cavadas” e genitálias carecas desmatadas à base de cera quente. Para o dia a dia, a opção mais conveniente é raspar as pernas no chuveiro. Por R$ 9,90 o pacote com duas lâminas não parece um mau negócio, mas com o clima quente e as canelas constantemente expostas a depilação se torna quase diária, e as lâminas rapidamente ficam cegas.

E se você tiver pernas como as minhas, vai uma lâmina em cada perna e acabou.

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A serenidade no olhar de quem é peludo mas todo mundo acha bonitinho.

Caso você seja uma mulher que se depile com lâmina, provavelmente também vai levar um tubo de espuma para depilação. A opção mais barata sai por R$ 13,99, totalizando R$ 23,89 no combo lâminas + espuma.

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Dessa vez o rosa e o sensível vieram separados.

Outra opção para a remoção dos pelos é a cera fria, que é menos eficiente que a cera quente e tão ou mais dolorosa quanto. As folhas de autoflagelação cera são vendidas em uma versão para o corpo, por R$ 15,99, e uma para o rosto, por R$ 9,99. A composição química das duas versões é idêntica, como pode ser verificado no site do fabricante aqui e aqui. Ou seja, estão te fazendo de trouxa e vendendo duas vezes a mesma coisa.

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De novo a caixa rosa e a indicação de que o produto é para “peles delicadas”. Para arrancar metade do seu sovaco fora com toda a delicadeza.

A terceira opção para a depilação são os cremes depilatórios, uma solução feita de ácido tioglicólico e hidróxido de potássio que destrói as células de queratina que compõem os pelos. Novamente, existe uma versão para o corpo e uma para o rosto, por R$ 23,49 e R$ 15,79 respectivamente. Diferente da cera fria, a composição dos produtos não é idêntica. A versão facial contém alguns ingredientes a mais. Não possuo o conhecimento de química para saber se eles fazem alguma diferença, mas caso alguém queira dar uma olhada, as composições podem ser vistas aqui e aqui.

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Só eu que acho que é meio bizarro colocar na sua cara um bagulho que derrete cabelo?

No final das contas, negar nossa natureza mamífera e cabeluda não é a melhor ideia, do ponto de vista da saúde. A remoção dos pelos, especialmente com cera, pode causar o encravamento dos pelos, foliculite, dermatite de contato, queimaduras e outros problemas dermatológicos. A depilação completa da região genital, que tem se tornado cada vez mais comum, possivelmente devido à influência da pornografia, pode ter infecções mais graves como consequência. A região é úmida e quente, perfeita para a proliferação de bactérias, que tem acesso à corrente sanguínea através de pequenas lesões causadas pela remoção dos pelos. Existem evidências também de que a depilação da região genital facilita a transmissão de DSTs.

Quanto ao mito de que não depilar o corpo é falta de higiene, se você acredita nisso seja coerente e raspe a cabeça na zero. E as sobrancelhas também.

E falando em higiene, temos também aqui o famigerado sabonete “íntimo”, que estava em promoção, custando R$ 14,99.

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Quem quer que seja que decidiu que boceta tem que ter cheiro de flores definitivamente não gosta de boceta.

Embora a embalagem se gabe de ser recomendada por ginecologistas, os médicos recomendam cautela no uso do produto, desencorajam o uso diário e reforçam que a vagina tem mecanismos próprios para manter-se limpa, além de possuir uma flora bacteriana complexa que pode ser prejudicada pela introdução de substâncias estranhas. A recomendação geral é lavar a região genital com água corrente, usar roupas folgadas e roupa de baixo de algodão.

Em suma, é um produto de função questionável, que deve boa parte de suas vendas à ideia de que a genitália feminina é naturalmente suja e fedorenta. O uso constante de perfumes, sabonetes e outras substâncias que mascaram o cheiro e secreções naturais da vagina também impedem que a mulher conheça o estado natural do próprio corpo, e uma mulher que não conhece as condições normais de sua vagina não tem como reconhecer alterações que possam realmente indicar um problema de saúde.

Não existe nenhuma necessidade real e nenhum benefício em mascarar o odor natural da vulva com perfuminho de flores. Precisamos parar e nos perguntar a quem serve a nossa falta de auto-conhecimento.

Ainda lá pela região genital, encontrei esse produto para lavar calcinhas. Muitas mulheres lavam as roupas íntimas à mão, em parte para preservar uma peça que seja cara ou feita de material que não possa ser lavada a máquina, em parte por acreditar que uma calcinha suja possa “infectar” as outras roupas durante a lavada – e eu fui criada acreditando nesse segundo -, mas o que me chamou atenção nesse produto foram dois pontos em especial.

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O primeiro foi o preço do produto. O sabão líquido para roupas que usei acima como referência de preço é vendido a R$ 36,96 para um vasilhame de três litros, ou seja, R$ 12,32 o litro. O sabão para calcinhas vem em uma embalagem de 300ml e custa R$ 7,89, totalizando R$ 26,30 o litro. O fabricante do produto não disponibiliza a composição química em seu website, mas duvido bastante que a diferença seja significativa a ponto de justificar o preço duas vezes maior.

Em segundo lugar, repare na embalagem ao lado da fotografada, com o rótulo rosa. É um outro sabão de roupas da mesma marca, em uma versão “teen”. No site do fabricante vi também que eles vendem o produto em uma versão específica para lavar biquínis, e uma outra para lavar roupas esportivas. Novamente, não tenho como checar se cada um dos produtos tem uma formulação diferente, mas isso me parece ser uma simples questão de segmentação de mercado, uma técnica de publicidade que divide um público-alvo em segmentos menores, permitindo efetivamente a venda de mais produtos do mesmo tipo. Por exemplo, no caso do sabão de roupas, uma mulher que pratica esportes e tem uma filha adolescente que gosta de nadar compraria quatro garrafas de sabão ao invés de uma só.

Essa técnica de segmentação de mercado, em específico a segmentação por gênero, é muito bem explicada neste vídeo do canal The Checkout, no YouTube, que infelizmente só está disponível em inglês, mas vale uma olhada de qualquer maneira.

Passando para os produtos para a pele, temos aqui um creme que diz reduzir a celulite, vendido por R$ 54,99, e um que diz minimizar estrias, por R$ 55,99.

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Bye Bye Dinheiro.

Vamos começar pela celulite. Considero tratamentos para celulite uma maneira particularmente cruel de arrancar dinheiro das mulheres, porque a celulite não é uma condição médica. Ela não causa nenhum malefício para a saúde, e é pura e simplesmente resultado da maneira em que as células de gordura se organizam no corpo feminino.

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O diagrama acima representa as diferenças na organização das células de gordura subcutânea entre homens e mulheres. Nos homens, as células são organizadas em uma malha transversal de células de colágeno, e quando este engorda, as células se expandem e empurram a pele de maneira equilibrada. No caso da mulher, as células de gordura estão organizadas em estruturas de colágeno similares a cubos, e quando esses se expandem, pressionam a pele em pontos específicos, causando o efeito de “casca de laranja” da celulite. Essa diferença biológica permite à mulher armazenar uma quantidade maior de gordura corporal, extremamente necessária no caso de uma gravidez.

A celulite é uma característica sexual secundária feminina, e a grande maioria das mulheres possui o efeito em algum nível. O quanto ela é visível depende principalmente de fatores genéticos e da quantidade de gordura subcutânea, embora ela também seja visível em mulheres magras. Você pode usar todos os cremes do mundo, esfoliar a pele, fazer exercícios, ou até fazer procedimentos invasivos como a lipoaspiração, e se você tiver a predisposição genética para a celulite ela vai voltar. E isso vale pra praticamente todas as mulheres, de 85% a 98% segundo um estudo de 2014.

Vale a pena gastar dinheiro em tratamentos ineficazes, para tentar resolver algo que sequer é um problema?

Já no caso das estrias, elas ocorrem em situações onde há uma expansão rápida do tecido cutâneo e as células que formam a pele não conseguem acompanhar, criando uma cicatriz. É comum em casos como a gravidez, puberdade, ganho rápido de peso ou mesmo ganho rápido de massa muscular. No aspecto da saúde, como qualquer outra cicatriz, deixando a pele um pouco mais sensível mas não afetando a capacidade de regeneração e função da pele de qualquer outra maneira. Assim como outras cicatrizes, elas tendem a se tornar menos visíveis ao longo dos anos. Assim como a celulite, é uma questão puramente estética.

A eficácia dos tratamentos específicos para as estrias é questionável.

Ainda na questão da pele, encontrei esse creme, por R$ 64,99, que diz reduzir “rugas e linhas de expressão”.

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Embora homens também enruguem, a gente sabe que esse creme é pra mulher porque a embalagem é rosa.

A discriminação contra mulheres idosas é uma realidade. Ignoradas em políticas contra a violência sexual, desproporcionalmente preteridas no mercado de trabalho e, em uma sociedade que valoriza a mulher primariamente por sua juventude, aparência física e capacidade reprodutiva, são afetadas ainda mais que os homens pela pobreza e solidão na velhice. Considerando essas condições é perfeitamente compreensível que uma mulher queira evitar a qualquer custo os sinais da velhice.

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Usando dados do site de namoro OKCupid, Christian Rudder, autor do livro “Dataclysm”, descobriu que homens heterossexuais de todas as idades preferem mulheres que mal saíram da adolescência.

A eficácia dos produtos que prometem eliminar rugas questionável. Embora testes clínicos tenham demonstrado mudanças na pele e minimização da aparência das rugas, resultados similares foram atingidos com cremes hidratantes comuns, e com menos efeitos colaterais. Como no caso do sabão para roupas íntimas, a composição química do produto não está disponível no site do fabricante, o que me impossibilita de fazer uma pesquisa específica pelo princípio ativo do creme. O fabricante oferece oito produtos diferentes em sua linha “anti-idade”.

No final das contas, o fato inquestionável que o processo de envelhecimento é inevitável, e as rugas fazem parte deste processo. A existência de uma variedade tão grande de produtos se deve simplesmente ao paradigma cultural atual, onde pessoas idosas são desvalorizadas e mulheres idosas ainda mais. Esse culto à juventude e aos padrões de beleza é particularmente acentuado em um país como o Brasil, que mesmo com a atual economia deteriorada registrou mais de um milhão de cirurgias plásticas por ano nos últimos anos.

Para finalizar, temos alguns produtos de maquiagem.

O preço combinado dos cinco produtos é de R$ 77,44. A questão da maquiagem merece um post inteiro por si só, não só por ser um dos maiores símbolos associados à performance da feminilidade mas, principalmente, pela recente tendência de marketing de apropriar termos e retórica feminista para vender os cosméticos, utilizando termos como “empoderamento”, exaltando a coragem feminina e vendendo uma imagem de liberdade e sucesso profissional.

O ato de pintar o rosto está presente desde o começo da história da humanidade e se apresenta de maneiras muito diversas, com propósitos que vão desde o ritualístico e religioso até a exploração artística. No entanto, esses elementos não estão presentes na cultura da maquiagem contemporânea. O que existe é uma pressão constante para que mulheres escondam toda e qualquer imperfeição em seus rostos, usem truques de luz e sombra para disfarçar o formato de suas feições e encaixá-las em um padrão de beleza eurocêntrico – o popular “contouring”-, e escondam qualquer sinal de envelhecimento, vivência ou cansaço.

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Falando em sinais de cansaço, aqui está esse produto anti-olheiras, por R$ 45,69.

Apesar de toda a retórica feminista, imagens edificantes e da promessa do “empoderamento” e do aumento da auto-estima, o que a realidade mostra é uma pressão para esconder a aparência natural e a propagação da ideia de que nós mulheres devemos ter vergonha de sair na rua sem este disfarce. Tablóides no mundo todo publicam fotos de celebridades de “cara lavada” em tom de zombaria, como se isso fosse motivo de vergonha. Será que isso realmente é empoderador?

E, a questão principal desta postagem, para onde está indo o dinheiro que milhões de brasileiras gastam todos os dias com cosméticos? Essas empresas realmente tem o bem-estar da mulher em mente?

Nesse ponto, tive que sair da farmácia porque dois funcionários estavam me seguindo e me olhando feio, então não pude fotografar outros itens de maquiagem usados frequentemente, como bases, blushes e sombras, mas fica aí a reflexão caso alguém queira repetir o experimento.

A soma total dos preços dos itens fotografados é de R$ 411,13. O equivalente a 108 passagens de ônibus, 79 quilos de feijão, 128 litros de gasolina, ou quase metade de um salário mínimo. E embora produtos e serviços de beleza sejam vendidos usando uma retórica de carinho, auto-cuidado e amor próprio, podemos ver nos estudos linkados acima que boa parte deles sequer cumpre a função a qual se destina, e outros causam dor ou tem efeitos colaterais nocivos.

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Esse serviço de depilação de sobrancelhas se vende como um “carinho” e um luxo. E aí você paga uma pessoa pra arrancar os cabelinhos da sua cara e isso dói pra porra.

Em um país como o Brasil, onde ainda existe uma desigualdade salarial significativa e onde mulheres realizam uma parcela desproporcional do trabalho doméstico, é necessário em algum momento parar e refletir sobre como nós estamos usando nosso dinheiro e nosso tempo livre, e se as escolhas que fazemos são realmente as melhores para nosso bem-estar físico e mental.

E sim, é inegável que existem consequências para qualquer desvio da norma da sociedade. Seria ingênuo ou até mesmo malicioso negar que mulheres que se recusam a se maquiar, se depilar ou a agir de forma feminina sofrem escárnio, discriminação ou até mesmo violência. Mas temos que ter uma visão realista da nossa situação: existem empresas que querem nos vender produtos que não nos trazem nenhum benefício real, e para isso nos dizem que somos feias, fedorentas, sujas, desleixadas e preguiçosas caso não usemos os tais produtos. Ligar a televisão e assistir a comerciais de produtos de beleza é ser constantemente insultada, diminuída e tratada de maneira condescendente.

Por mais que, em certas situações, tenhamos que fazer concessões ao sistema vigente para sobreviver dentro dele, temos que ter em mente que somos suficientes. Não precisamos sentir dor e desconforto para perceber nossa própria beleza. Não precisamos gastar meio salário todo mês para amar nosso próprio corpo. Não precisamos nos olhar no espelho como se fossemos sempre um projeto incompleto, sempre necessitado de aprimoramentos e correções. Não precisamos nos podar e pintar para agradar pessoas que nos vêem como criaturas sub-humanas.

Nada disso é uma necessidade. São realidades do nosso cenário contemporâneo, mas não são necessidades. Amor-próprio real é se permitir o descanso, é alimentar seu corpo sem culpa, é se aceitar com todas as nossas pequenas imperfeições, cicatrizes, pêlos e outras marcas de animal mamífero feito de carne e osso, sem a necessidade de se cobrar para ser um ser impossível de beleza etérea. Que tenhamos sempre isso em mente.

Uma última coisa, caso o seu empregador exija o uso da maquiagem durante o horário de trabalho, ele tem a obrigação legal de providenciar o produto ou de reembolsar a empregada pela compra do mesmo, pois a exigência da maquiagem a caracteriza como uniforme. Um exemplo pode ser visto aqui.

E só pra terminar de uma maneira bem-humorada, esse foi o produto mais esquisito que encontrei naquela farmácia. É um adesivo hidratante de seios que aparentemente serve pra colar a mama na mesma altura que um sutiã a deixaria, por quase o dobro do preço de um top decente.

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Imagem censurada para evitar polêmicas no ambiente de trabalho.

Fica aí a reflexão.

Por que você quer se parecer com um homem?

Minhas roupas são compradas na seção masculina. Os pêlos nas minhas pernas são mais compridos que a maioria dos cabelos na minha cabeça. Eu nunca uso maquiagem, não importa se estou saindo para comprar pão de manhã ou se estou indo a uma festa. As pessoas na rua muitas vezes me chamam de “senhor”. Outras partem para o insulto, às vezes me chamando de “sapatão”, outras vezes me chamando de “viado”, em ambos os casos demonstrando sua desaprovação da minha aparência física. Vejo crianças pequenas perguntando às suas mães, aos sussurros, se eu sou um menino ou uma menina. E me perguntam o tempo todo “por que eu quero me parecer com um homem?”.

A resposta é simples. Eu não quero.

E eu não me pareço com um homem.

Eu me pareço com uma mulher que se recusa a fazer a performance da feminilidade.

Minhas pernas peludas não me fazem parecer masculina, elas são MINHAS pernas, e é o MEU pêlo, e eu sou uma mulher. Minhas roupas “de menino” vestem o meu corpo, o corpo de uma mulher. Meu rosto nu, sem pintura, é o rosto de uma mulher. Eu sou uma mulher, e isto não é definido por um corte de cabelo ou uma escolha de vestimenta, ou por batom e sapatos de salto, ou por cuecas e desodorante masculino aplicado em axilas cabeludas. Não têm nada “másculo” em mim.

Eu sou uma mulher, e isso não é uma escolha, mas um fato. Porque “mulher” é uma realidade imposta a mim, do dia em que eu nasci e recebi um nome de mulher, ao dia em que eu tinha seis anos de idade e me disseram, em um dia escaldante de verão, que eu não podia tirar a camisa porque no futuro eu teria seios, até a noite passada, em que eu voltei para casa a pé, num estado de hiper-atenção, com as chaves de casa apertadas firmemente entre os dedos, seguindo cada movimento de cada homem que andava na rua escura.

Eu sou mulher porque, desde antes do meu nascimento, quando uma imagem de ultrassom informou aos meus pais que eu nasceria com uma vulva, eu fui educada para ser um membro da classe mulher, a classe reprodutora, a classe do sexo, a classe subalterna. Eu fui ensinada a sempre acomodar os outros e a falar de maneira mansa, a não chamar atenção para mim mesma e a poupar os egos e os sentimentos dos homens. Me ensinaram que o menino que puxou o meu cabelo e atirou seu trenzinho de brinquedo em mim, mirando na minha cabeça, provavelmente o fez porque ele gostava de mim, e que meninos são assim mesmo. Aprendi que, se eu fizesse o mesmo a ele, eu era uma encrenqueira, causadora de problemas. Que ser assertiva é feio, não é atitude de mocinha. Que um dia eu iria me casar e ter os filhos de algum homem, e isso era praticamente destino, uma certeza da vida. Que meu maior valor estava na minha aparência, muito mais que na minha mente. Sou mulher porque me foram ensinadas todas essas coisas, e sou mulher porque as pessoas esperam que eu saiba todas essas lições de cor, e siga cada uma delas.

Quando as pessoas me perguntam por que eu quero me parecer com um homem, o que elas realmente estão perguntando é por que eu me recuso a me apresentar como um membro da classe mulher. Elas estão me perguntando o porquê de eu não estar representando o papel da feminilidade, me apresentando de maneira agradável e inofensiva aos olhos da classe dominante, a classe dos homens. Minha mãe uma vez comentou, preocupada, que tinha medo que minha apresentação e atitude me tornassem alvo para a violência masculina, e ela está certa em sua preocupação. Eu sou percebida como um membro da classe subalterna que se recusa a se portar e apresentar e cumprir o papel imposto a mim. Eu me recuso a depilar minhas pernas para me parecer com uma criança pré-pubere, inocente e vulnerável, ou a usar sapatos que me forcem a andar apoiada nas pontas dos meus pés, de maneira lenta e com equilíbrio precário, e isso enfurece os homens, pois é um ato consciente de rebelião. Isto sou eu dizendo que não pertenço a eles. Que não vou agradá-los. Que não desejo sua atenção ou sua aprovação. E os homens frequentemente tratam com violência quem se recusa a fazer o que eles querem.

Minha escolha de apresentação física me torna um exemplo negativo. Eu sou a feminista lésbica, feia e cabeluda, aquela que os homens usam para servir de aviso às outras mulheres. “Não seja como ela”, eles dizem, “ou nenhum homem vai te querer”. Mas eu também não os quero, e não quero me parecer com eles, ou ser como eles, ou ter qualquer coisa a ver com eles. Eu quero ser livre dos homens e seus padrões arbitrários. Quero poder andar orgulhosa, sem culpa ou vergonha por não ser “feminina”, do jeito que uma mulher é quando não está coberta de pintura e vestimentas restritivas, uma mulher que não se importa em agradar aos homens.

Eu não me pareço com um homem, e nada vai me fazer parecer um. Sou apenas uma mulher não-adulterada. Eu escolhi a mim mesma ao invés deles, e escolhi outras mulheres ao invés deles. Se isso fizer com que os homens me odeiem, que seja. Eu sou mulher, e eles vão me odiar de qualquer maneira.

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Este post foi originalmente publicado no Tumblr em 4 de Fevereiro de 2014, exatamente três anos atrás, e posteriormente traduzido para o português e publicado em um blog brasileiro. O texto foi originalmente inspirado por uma conversa que tive com a minha mãe, logo depois de eu ter entrado em casa com o cabelo raspado, o que a fez comentar, frustrada: “tudo bem você ser lésbica, mas por que você quer se parecer com um homem?”.

Ruminei no que ela me disse por mais ou menos uma semana e depois escrevi esse texto, mais como um desabafo que como qualquer outra coisa, e tive muitas respostas interessantes e provocativas que levaram a discussões intrigantes sobre feminilidade e sobre o que é ser mulher, que mudaram minha maneira de ver o mundo. Sou grata por todas as pessoas que eu conheci e com quem interagi por causa desse texto, incluindo a mulher maravilhosa que viria a ser minha parceira. Sou uma mulher diferente hoje por causa dele.

Não acho que minha mãe vá ler esse texto algum dia, e acho que ela nunca vai saber o que ela inadvertidamente gerou. De certa maneira, sou grata a ela por tudo isso. Ela me ensinou o que é ser mulher e, questionando estes ensinamentos, encontrei minha própria maneira de vivenciar a minha mulheridade.

Espero que esse blog possa ser um espaço de discussão, exploração e reflexão. Vamos ver onde chegamos daqui a mais três anos.

Ano novo, blog novo

Minha resolução para o ano de 2017 foi me afastar um pouco das redes sociais. E também começar um blog de gente grande.

Por quê?

Porque redes sociais não são uma plataforma eficiente para a criação de material original. Ninguém tem paciência para ler textos longos – chamados pejorativamente de “textões” -, e eu quero dar uma esticada no cérebro criativo aqui. Além disso, redes sociais são uma grande distração e desperdiçam muito tempo. E sim, eu sei que estou soando como sua tia paranoica ou como aqueles caras dos TED talks que falam como as redes sociais estão destruindo sua mente e te transformando em um zumbi. Em suma, eu queria algo mais substancial que o Facebook ou o Tumblr para escrever textos longos, e queria algo que me desse mais controle sobre a formatação do texto.

Sobre o que vai ser esse blog?

A descrição é auto-explanatória. Vai ser sobre lésbicas.

Vai ser um blog sexy?

Não da maneira que você está imaginando.

Vai ser seguro ler esse blog no trabalho?

Eventualmente vai ter discussão aqui sobre tópicos sensíveis, como violência e pornografia. Vou evitar postar imagens que possam ser chocantes, mas de qualquer maneira não deixe seu chefe ler o blog por cima do seu ombro.

Com qual frequência vai ter post novo?

Esse blog vai funcionar num esquema de qualidade acima de quantidade. Quero postar material bem pesquisado, com bom conteúdo original. Minha intenção é postar algo novo toda semana, mas prefiro atrasar um post para ter certeza de que ele está adequado a postar algo incompleto.

Eu discordo de algo que você disse.

Deixe um comentário! Debate amigável é sempre bem vindo.

Eu discordo de algo que você disse e por isso vou agir de uma maneira escrota.

Seu comentário não vai ser publicado e sua existência será completamente ignorada. Isso aqui não é rede social onde qualquer um tem plataforma pra vomitar babaquice.

Eu queria falar uma coisa mas não quero postar em um comentário.

Mande um e-mail. Vou responder eventualmente. Só tenha em mente que eu não sou terapeuta, psicóloga ou psiquiatra e não sou qualificada para exercer esses papéis. Eu sou formada em design de jogos. Se você quiser falar sobre jogos, tamos aí. Se você tem algum problema relacionado a questões psicológicas, procure alguém que saiba o que está fazendo.

Nossa, você é muito ranzinza.

Sim. Mas de uma maneira adorável.

Aproveitem o blog, galera. Logo logo chega o conteúdo.